domingo, 16 de outubro de 2011

Não sei ou não quero dizer?

Essa é uma pergunta que incute, invariavelmente, em um confronto de valores éticos e morais na guisa da verdade e de sua antítese, a mentira. Há quem considere a omissão o meio termo entre a oposição. Há quem diga, também, que existem meias verdades e mentirinhas, dando, a ambas, características eufemísticas. Experimentar esse mix de relações abstratas na realidade é bem factível. Dia a dia provamos o seu sabor - amargo, salgado, doce, azedo... vai depender do conteúdo e do seu paladar; se o cardápio for forasteiro, este sabor será mais aguçado, seja qual for.

Em terras forasteiras, você fica mais suscetível às intempéries locais, desde a chuva desavisada até ao cotidiano das pessoas e do mundo que não conhece. Frente ao inusitado, a boca que leva à Roma pelo ditado popular também é evocada a perguntar, em busca de informações. Antes, um parêntese: você, que tem seu namorado, sua namorada, sente a falta da pessoa querida pelo fato de ela demorar a chegar e, no encontro, pergunta: "onde você tava?", tem como resposta "tava ali...", questiona o celular desligado e ouve um "não sei...", guarde essa sensação para entender o fim do texto.

Viajante que não é turista - e mesmo se fosse - gosta de perguntar, ter o novo local de forma mais palpável, seja para o entender, seja para nele poder transitar, conviver e vivenciar. Um ônibus era necessário nessa minha saga no lugar diferente e, obviamente, a pergunta que não calaria ninguém: "qual ônibus eu devo pegar para chegar ao destino tal?". Você pergunta inicialmente a um policial, prevendo que ele dê uma informação segura (literalmente, segurança...) e obtem como resposta "não sei". Estranho. Um homem dá a informação e quarenta minutos depois avisa que o ônibus não tem trocador, que as passagens são por bilhete. Ao perguntar onde comprar, mais uma vez "não sei".

Um lugar novo que mesmo não sendo o destino turístico parece-lhe dever ser acolhedor e essa situação era, ao contrário, irritante. Vinte minutos e chegar em terminal de nome bíblico, o vendedor de bilhetes também me responde "não sei" à pergunta inicial, do ônibus para chegar ao destino. "Pergunta ao motorista aí atrás d'ocê", disse ele. Pensei em mudar a estratégia e questionei se aquele ônibus chegaria ao obstinado destino. "Não" foi a resposta. Mudou-se a estratégia, mudou a resposta. "...e qual que vai daqui até lá?", como forma de puxar assunto, saiu. A resposta? "Não sei".

Lembra da sensação sentida no parêntese? Foi a sentida ao ouvir o quinto "não sei" em menos de uma hora numa cidade desconhecida, onde você fica refém de deslocamento e de vivê-la. A questão ética e moral posta no começo da crônica não se direciona às pessoas, que nem as conheço, mas ao hábito, ao establishment percebido por várias pessoas próximas a mim neste horizonte vivido naquele território. Além do mais, a narrativa de um exemplo é apenas uma provocação à pergunta lançada: é mais danoso, mais irritante - quando perguntamos - a negação da informação ou o seu desconhecimento? A resposta, levemos a reflexão sobre mentiras, verdades, omissão, meias verdades e mentirinhas necessárias e veremos a dimensão dessa conjuntura em nossas vidas, aqui e acolá.

Nenhum comentário:

Postar um comentário