A vida é tão efêmera, mas ao mesmo tempo tão abstrata que algumas possibilidades de vivê-la plenamente são paradoxalmente negadas, paradoxalmente reprimidas, ao mesmo tempo que torna-se capaz de contraditoriamente surpreender, contraditoriamente renovar as esperanças.
Em situações bastante peculiares, sentimos o pulsar da vida no peito de tal forma que o coração sofre espasmos para além de sua comum função. É a adrenalina, é a emoção, é a tenra sensação de uma avalanche que o corpo tenta controlar e disfarçar, mas o espírito não nega e às vezes emana ao mundo real. Há quem chame de frio na barriga, de borboletas no estômago ou a falta de ar que não dá agonia. Há quem sinta em partida de futebol, em apresentação artística ou científica ou nos momentos do amor.
Talvez ao mesmo tempo ou então em outros momentos, sentimos a angústia das relações se realizando de maneira que a multidão se torna solidão, os cânticos ficam mudos e silenciosos e a música ao invés de sorrir e dar prazer, chora e dá alfinetadas. O relicário imenso transcende em terços infinitos que do diverso constroi o caminho único. Há quem chame isso de depressão, de infelicidade, de frescura. Há quem sinta de modo a calar, a chorar, a gritar, a bater, a correr, a beber.
Ao passo de toda essa noção e em meio a tamanhas circunstâncias, o mais importante é saber conviver com os momentos. Com ambos os momentos. Com cada momento. Usufruir da experiência de ter passado oportunidades anteriores em cada fase, em cada disritmia, para o bem, para o mal, é um destino que se consagra no avançar da caminhada. Como a esperança não pode nunca deixar de existir, as vias se transformam para o começo-meio-e-fim não linear se realizar: o caminho da vida.
Para não negar, para não reprimir, para surpreender e para renovar as esperanças, as pedras que estão no caminho, como poetizou Drummond, tem que ser retiradas.
Se em seu caminho não há quem queira lhe seguir, faça como faria com as pedras: tire-as do caminho. No bolso, no coração, na lata do lixo, na semeadura da indiferença ou ao relento do desprezo, aí a opção é de cada um. Qual será a de nosso caminho? Não queira descobrir.
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