Uma tarde de estudos específicos sobre a cidade e o urbano. Um capítulo denso e bastante interessante sobre Henri Lefebvre e seu 'Espaço e Política', há clara observação e convergência sobre uma condição inerente ao cotidiano que reproduzimos: na política do espaço, o espaço é político. A política do espaço, conforme apresenta, é permeado de estratégias dos usadores - ou, para sermos didáticos, dos agentes que produzem o espaço: capital, movimentos sociais e Estado.
Conservando este significado, importante compreender que a Universidade, tanto como um ente institucional do Estado (quando pública) como um equipamento urbano da cidade e, assim, pertencente ao cotidiano do ir e vir de todos (independente de sua natureza), é o espaço por excelência de convivência das diferenças e o lugar onde se sobressaem as tentativas de melhoria (na perspectiva conservadora) ou transformação (na perspectiva radical) da realidade. Como um tópos do pensar, essas diferenças e tentativas, mesmo divergentes, parecem ter um objetivo em comum: a realidade. Bastaria considerá-la concreta em meio à abstração e, dialeticamente, em sua abstração enquanto concretude.
Eram mais de 16h. As mentes cansavam, mas Lefebvre parecia estar motivando as discussões em torno do abstrato e do concreto dialético quando uma amiga em comum das três pessoas do grupo aparece. Um tanto tensa, em virtude dos prazos acadêmicos, logo tem ao seu redor os queridos que a amam, que a seguem e, de uma maneira bem pueril, que a idolatram: os gatos. Como uma mãe que cuida dos filhos, depois da prosa abre sua necessaire e dá o de comer aos gatos. Os gatos estavam nos bancos de cimento. Lá a ração fez companhia a eles, até ser comida. Uma companhia indigesta aparece.
Imediatamente, escuta-se: "dá chumbinho pr'esses gatos!"; "aí não é lugar de gato comer, é de estudante sentar, rapaz!". De forma muito grosseira, um professor interrompeu sua aula para dar sua pretensa lição de moral, com intensa falta de educação. "Esses gatos são tudo doente, são vetores de doença!", ainda berrou. Os gatos não vão a Universidade porque tem comida por pessoas boazinhas, mas porque são abandonados, isso sai tanto da boca dela quanto de qualquer pessoa esclarecida a este respeito. Cinco minutos de desabafo estressado entre amigos e o professor conclui sua aula vindo até a mesa e, entre tantos devaneios, reconhecimento da grosseria e a ausência da educação, fecha com "chave de ouro" sua profecia: "o problema ecológico e ambiental do mundo é a falta de controle demográfico humano".
O grupo conversa, espia os olhos e faz algumas considerações sobre o fato: este professor é malthusiano, acreditando que a população cresce em proporções geométrias alarmantes. Um retorno às aulas de Geografia e Economia Política bem conservadoras. Ademais, uma conclusão empírica do grupo de estudos: o espaço é definitivamente político e seus usagers, na forma francesa de discernir os agentes, pensam o mundo a partir do seu umbigo e o encerram em seu próprio chão. Um felinocídio foi proposto e para ele o problema estaria resolvido. Para ele.
p.s: Este fato foi real e ocorrido na Universidade Estadual do Ceará - UECE. O professor terá sua identidade preservada por não sabermos seu nome. A colega "mãe" dos gatinhos é uma militante da proteção animal e faz parte do Grupo de Apoio e Bem Estar Animal - GABA, que promove diversos eventos a fim de sensibilizar pessoas e encaminhar animais à adoção. A moral da história, além da descrita, é sensibilizar em torno do concreto - nossa realidade - para que possamos conhecer aquilo que ocorre e não percebemos.
infelizmente já aconteceu uma dessas enquanto eu alimentava gatinhos na uece também =( ... uma mulher muito grosseira e estúpida disse essa história aí das doenças e tb disse, aliás, todo o tempo ela gritava comigo, me chamou até de criminosa por auxiliar a propagar estas tais doenças de que falou, e ainda perguntou por que eu não os levava todos para casa... enfim.. queria mesmo ter uma casa enorme e fazer o bem a todos esses gatos mas não tenho =(
ResponderExcluirFelipe Silveira, parabéns por esta nota de repúdio. Os gatos (e todos os animais) não podem gritar, reclamar, se defender diante de atos inescrupulosos como este... é preciso que alguém berre por eles. Lania Cardoso, um fato como esse só deve reforçar seu carinho e cuidado com esses seres!!!
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