terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Discutindo a relação entre Lei Geral da Copa e ex-jogadores

Evidencia-se nas redes sociais uma grande discussão (mais uma) a respeito da Lei FIFA Geral da Copa, agora em sua proposta de premiação e estabelecimento de piso aos campeões mundiais das copas de 1958, 1962 e 1970 (veja aqui a proposta de adesão desta proposta à lei: http://esportes.opovo.com.br/app/esportes/futebol/selecaobrasileira/2012/02/28/noticiaselecaobrasileira,2290764/lei-geral-premio-de-r-100-mil-aos-campeoes-mundiais.shtml ). De maneira diferente como tenho percebido o que é recorrente nestes espaços, acho que é importante desagregar os assuntos para um debate político mais totalizante. O que se segue é um ensaio para uma crítica, que não se encerra no próprio texto, vislumbrando estabelecer diálogos. Abre-se espaço, portanto, para reavaliações.

Inicialmente, um grande perigo na discordância de muitos em relação ao que se propõe é comparar com categorias profissionais o mérito da questão. Há comparação com o piso dos professores da rede básica de ensino e universitários de campus estaduais, mas que pode vir também a comparação com o piso dos policiais, médicos e outras tantas categorias profissionais que lutam por isso, com o plano de cargos e carreiras de agentes comunitários de saúde e outras tantas categorias profissionais que lutam por isso, além de profissionais que batalham no reconhecimento de seu exercício, como os catadores de resíduos sólidos. Se fazemos deliberadamente comparações, recorrentemente vamos acabar avaliando quem merece mais ou menos uma reivindicação salarial ou de proteção previdenciária à carreira. Ao invés de unificar as lutas e reivindicações por melhor qualidade de vida, acaba-se, assim, por fragmentar ainda mais os/as trabalhadores/as em suas pautas individualizadas. Fora uma questão que fica no ar: jogador de futebol é uma categoria profissional (antes relegada e atualmente superremunerada)?

Com isso, vale salientar outra consideração: o futebol alimenta a alienação de massa. Em partes, isso é uma verdade, de tal maneira que os interesses de quem gerencia carreiras, campeonatos e detém o know how da gestão econômica e política do esporte (e o futebol não é exclusividade) é uma condição restrita. Não dá para afirmar com veemência que jogadores de futebol e todos aqueles que trabalham no esporte (desde os especialistas da área médica até os roupeiros, com seu ensino fundamental incompleto) são objetos alienadores das massas, mas tão massa de manobra quanto quem o venera. Ademais, nossa crítica à questão pode crucificar os ex-jogadores, quando o alvo destas críticas devem ser outros.

Dito isso, a questão que o debate atinge acaba não sendo o ponto crucial da pauta: a famigerada Lei FIFA Geral da Copa. Seus proponentes é quem merecem estar no alvo das discussões e não apenas pelo acréscimo de uma pauta de comoção social à massa considerada alienada. A Lei FIFA Geral da Copa apresenta questões de suma importância a serem discutidas e de retirada de direitos estabelecidos nacionalmente e com base de muita mobilização social, como a meia-entrada a jovens, a proibição de consumo de bebidas alcoólicas dentro dos estádios e o cumprimento do Estatuto do Idoso, do Torcedor e da Cidade na realização dos jogos da Copa 2014 - e que vem sido subvertido em prol desses proponentes, vinculando interesses à busca de rentabilidade da empresa FIFA.

Assim, em poucas palavras de uma discussão que não se encerra, o que está em jogo não é um benefício a ex-jogadores campeões mundiais (que na minha opinião está de forma escrupulosa posta nesta Lei para garantir adesão social, mas que discutindo os valores e as formas de atendimento a estas pessoas, é uma consideração relevante em ser proposta), mas aquilo que é mais estupendo no rompimento de nossas relações com a própria cidade de um modo mais totalizante.

Se fossem propostas desvinculadas, eu preferiria contribuir meu imposto a estes ex-jogadores à realização caríssima e absurda da Copa 2014, se o esquema for comparativo.

Acho que estamos mirando para atirar no alvo errado.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ensaios sobre o amor animal: o papagaio gasguito

Costuma-se dizer que as horas passam e alguns fatos impreterivelmente acontecem cotidianamente: sete horas e o estresse no início do dia antes da rotina cansativa; meio dia e o burburinho para o almoço, dezessete horas e o trânsito caótico de volta para casa; vinte e uma horas e a tradicional novela das 'oito' a quem gosta de ficções sempre com os mesmos enredos e finais. Há, no entanto, quem se surpreenda com o inusitado. O inusitado que perturba, às vezes. Às vezes praticamente todos os dias às dezessete e meia horas.

A quem tem uma rotina diferente, fora do trânsito e dentro de casa com trabalho acadêmico, virtual, empreendedor/a do e no lar, gestão domiciliar e condominial ou outras atividades em que o escritório seja um cômodo de sua casa ao invés de um outro imóvel, é de se ter com bom grado a presença de animais a abrilhantar e contrabalancear com a chatice do dia-a-dia entre lesões por esforço repetitivo e cadeiras quentes. Nem sempre. Nestas impreteríveis horas e minutos, quase que diariamente, um sofrimento ao longe ocorre e muitos ouviriam, se tivessem chegado da sua rotina padrão.

Entre gatos e cachorros, entre canários e lagartos, entre sapos e formigas, ganha relevo o papagaio. É bonito, mora supostamente no terceiro andar, tem uma visão panorâmica bem interessante e parece fofocar sobre o que enxerga de longe com os seus pares em seu mirante, mais conhecido como apartamento. Como uma forma de denunciar a presença que o gato percebe pelo olhar aguçado e o cachorro pelo olfato megadesenvolvido, o papagaio institivamente paquera de outras formas. Ele grita.

De olhos fechados, imagina-se que o papagaio está sendo torturado com um isqueiro a queimar suas penas pela pontinha, sendo vestido por um espartilho, impedido de voar cortando as pontas de suas asas ou clamando por socorro a quem muito precisa de ajuda, mas... é apenas a sua forma peculiar de sensualizar frente a uma passarinha que fica em um bloco em frente ao seu, num andar inferior, estando ao seu horizonte que, da varanda, vislumbra a cozinha e a área de serviço alheia. Agora que se sabe porque ele grita, a impaciência predomina a quem convive indiretamente com esta forma de amar.

Ela, a passarinha, ao que parece, não dá nem uma abanada de asa para ele.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Promoção cara

No carnaval em uma capital brasileira cujo ritmo não é dos mais frenéticos, se comparado com outras capitais (Recife, São Paulo, Rio de Janeiro...) e mesmo com as cidades do litoral cearense (Aracati, Paracuru...), Fortaleza não tem sido ultimamente tão quieta e, neste ano, surgiu uma outra possibilidade, mediante uma ótima iniciativa. Se não fosse seu interesse escuso - e que proporcionou outras questões.

A promoção? No período de carnaval, assistir a três filmes a dez reais com a franquia do estacionamento (para quem vai de carro, moto...) junto. Uma boa pedida para quem ficou. As compras somente no guinchê do cinema - eliminando as compras via internet e seu rápido consumo: certamente, os 10 mil pacotes seriam encerrados em três minutos ou menos. Até aí uma louvável ação. Suportar a longa fila fazia parte do pacote da promoção e, até então, era plenamente "aceitável" por conta da lei da oferta e da procura, esse paradigma capitalista.

No entanto, parece que inseriram outros elementos no pacote. Com a longa fila e o longo tempo de espera, quem foi de carro, moto ou outro veículo estacionado acabou por contribuir e muito; com a longa fila e o longo tempo de espera; o consumo de água e/ou lanche acabou por contribuir e muito; com a longa fila e o longo tempo de espera; não entender o processo de compra e venda corroborou para tanto tempo e tanta gente - na compra, era necessário definir quais filmes, quais sessões e quais assentos (isso mesmo!), além de eu poder comprar quantos pacotes quiser, um, dois, cinco, 80, 300. Dessa forma, por conta de outras pessoas que não a administração do shopping - que, aliás, acabou por contribuir e muito, valores foram agregados e desagregados ao pacote.

Também com a longa fila e o longo tempo de espera acabaram por contribuir e muito o jeitinho brasileiro em querer se dar bem passando por cima das outras pessoas: um amigo que tava na frente na fila e eu dou meus cinquenta reais para ele comprar meus cinco pacotes; uma prima que há muito tempo não a via e, conversa vai, conversa vem, e eu penetro na fila; um grupo de amigos que encontra outro e tudo vira festa dentro da fila; o direito de preferencial sendo utilizado a varejo e com muitas pessoas sem este direito aproveitando uma gestante para adquirir seus ingressos ou inclusive chamar uma idosa para comprá-los. Tudo isso com as vistas grossas de um segurança que o shopping disponibilizava para ajudar a organizar aquela longa fila. Assim, a fila que seria prevista percorrer em longas duas horas, acabou sendo uma penintência de cinco horas.

Três filmes, estacionamento grátis, corrupção de valores para tê-los, comprando a varejo para, inclusive, revendê-los e ganhar dinheiro sobre a paciência de outras pessoas e o desejo de quem não teve como ir. A quem se manteve incólume, respeito, honestidade e caráter ainda mais se transformaram em elogio e característica - e não sendo mais e mais um princípio humano. Meus ingressos custaram dez reais, um absurdo de caro.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ensaios sobre o amor animal: a poodle do 101

À primeira vista, as lembranças vem à tona pelo sucesso cinematográfico em torno do make animal. Perambulando pelas telas do mundo, muitos cachorros foram transformados em astros; em outra perspectiva, muitos cachorros foram aviltados de defesa e continuam sendo alvo de pachorra (eu disse pa-chorra) alheia da humanidade, ora abandonados, ora sendo ressignificados enquanto uma péssima característica humana.

Saracoteando seu curto rabo - encurtado em seus primeiros meses de vida, por pura sacanagem -, a cachorra passeia pela cidade: por longo tempo de sua vida, percorreu sentindo a brisa da Praia de Iracema nas fuças, sentia o cheiro do Pagode da Mocinha ou mesmo de um churrasquinho de gato no Mercado dos Pinhões, no vizinho (e que poucos sabem desse detalhe) Centro da cidade. Nada discreta, porém disposta a conviver com as pessoas, seus passos saltitantes tem outros destinos: as ruas calmas da Parangaba e uma delas caótica, a via na qual um shopping center se instalará em breve. Daqueles bons pra cachorro!

Em seu desfile, a passarela é a própria vida, mas que em seu rumo não apareçam crianças! Crianças e motos! No mais, com discrição, é até fácil conquistá-la: não é simpática, mas ela é meiga, é folgada e muito carinhosa. Até certo ponto. Até determinado período. Quando - e assim são as fêmeas, humanas ou outras animais - entram em seu período de vermelhidão, ou mesmo em um período prévio a este, as coisas mudam de lugar. De verdade.

O bebedouro sai da área de serviço e vai à cozinha; a urina sai do jornalzinho e chega nos tapetes do banheiro; sua ressaca sai do colchãozinho do quarto e o sofá passa a acolhê-la; a satisfação sexual deixa de estar na língua e passa a ser encontrada no chão. Não está largado, porém; está em fricção junto a ela, numa relação não dialética, mas de um tanto modo platônico, pois, afinal, ela se satisfaz. Pra quê mais?

Longe dos holofotes de seus rituais prazeirosos, seus desfiles continuam pelas passarelas do condomínio. Peluda, com coleira rosa, chama a atenção pela sua pose, pelo seu garbo e pela sua... animalidade (para não chamar personalidade). Quando passa, é logo reconhecida: parece uma princesa... é a poodle do 101.

Parece mesmo. De fato, uma Princesa. No entanto, se 101 faz parte de sua vida, esse 101 não são dalmatas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Encontro, desencontro, reencontros. Encontros

É muito salutar quando uma questão teoricamente óbvia se torna tão principalesca que redunda na obviedade. Acabei por ser neologista e hermético ao mesmo tempo, não dizendo absolutamente nada. Nesse degringolar de ideias que circulam na cabeça até sua interpretação ocorre justamente o turbilhão que habita cabeças humanas quando ocupadas por pensamentos que são até conexos, porém confusos. É nesse sentido que (re)encontro(s) acontece(m).

Uma mesa de bar e um olhar perdido. Suficiente foram para proporcionar um encontro. Panorâmico, porém certeiro; platônico, porém memorável; indireto, porém direto; discreto, porém efervescente. As possibilidades e pensamentos distantes foram atiçados. Em outra mesa do mesmo bar, depois de meses do fato anteriormente ocorrido, sentar-se na mesma mesa e de frente não foi o suficiente. Foi o reencontro. Diálogo e correspondência; piadas e risadas; conversas e troca de ideias; sorrisos e sorrisos. As possibilidades de novos contatos foram efetivados. Noutra mesa e noutro bar, um novo encontro. Atraso com dúvidas; cerveja com vinil; petiscos com palitos; mesa com música boa; bar com gente bêbada. As possibilidades de novos encontros foram sendo alicerçadas.

Com tudo isso a vista e à prazo, (re)encontro(s) acabaram por se sucederem sempre tendo um pouco daqueles conteúdos pretéritos. No último, quando todos eles se misturaram, o ápice foi, depois do clímax, as reflexões proporcionarem um novo encontro. Um encontro separado, distante; um encontro conosco. Necessário, inclusive. Primordial.

Com (re)encontro(s) a perder de vista, no degringolar de ideias e no turbilhão das emoções que ficaram naquela mistura toda, se tudo isso gerar uma vitamina batida no liquidificador, pode-se dizer que de (re)encontro(s) saiu um fortificante alimento. Para ambos, feito por ambos e produto de (re)encontro(s).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ensaios sobre o amor animal: a gata do jardim

Nove horas da manhã. O dia começa com sua rotina de evasão das pessoas rumo ao trabalho neste mês de fevereiro que também tem o início das aulas como intensificador do corre-corre diário. Passos daqui, passos dali, e os resquícios negros neste início de jornada resumem-se às sombras dos corpos e aos milhares de pneus que rumam nas ruas e avenidas afora, calorentas e lotadas de gente.

Três horas da tarde. O sol começa a dar seus sinais de cansaço e o condomínio demonstra estar mais vazio, ermo, sem gente, abandonado, à espera dos passos de quem passara o dia conquistando a vida e o mundo fora de seus muros. As pegadas aparecem sorrateiramente, como quem investiga um novo espaço, uma nova busca, um novo tesouro. A gata do jardim é finalmente percebida nas ruas internas com seus pelos negros brilhantes e algumas marcas de suas aventuras.

Sete horas da noite. A lua escondeu o sol e as estrelas tentam brilhar em céu recoberto por nuvens de verão que não precipitam e por nuvens de poeira e poluição que insistem em crescer, em época de fortalecimento de obras e aumento de veículos. As senhoras fazem suas caminhadas dentro do condomínio, depois de assistir a novela mais romântica e mais idealista dos horários disponíveis e criando o apetite para, se não jantar um bom prato de comida, um cuzcuz com manteiga e café bem quentes. Paralelo às caminhadas geriátricas, a gata do jardim desfila, sensualiza, mostra seu charme a quem queira vê-la e apreciá-la. Estrategicamente, dá o ar de sua graça com o seu canto: alguns tímidos miaus.

Dez horas da noite. Horário de silêncio. Lei do sono. Regimento interno do condomínio. Convenção social consolidada. Sem muito esforço, poucos são os barulhos que se ouvem no condomínio, exceto, do bloco de onde se escreve, ter as possibilidades de assistir à novela das "oito" sem precisar ligar a televisão, por ouvir 'osmoticamente' o vizinho do terceiro andar fissurado - e praticamente surdo. Mesmo assim, a gata do jardim não deixa de ecoar seu miado mais forte, demonstrando toda sua charmée da conquista. Há quem goste e observe o ritual, há quem ignore e siga sua rotina, há quem deteste e... reclama para a síndica. E a gata do jardim, nada a perder e não sendo inquilina moradora, não desce do seu salto para paquerar. Não perde a pose.

Nove horas da manhã. Novo dia começa e nada da gata do jardim. Embaixo do carro, ela descansa depois de uma tórrida noite de amor, sente as dores das mordidas em sua nuca e das azunhadas em seu corpo e deixa suas cordas vocais em banho-maria para a próxima noite de rituais.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ensaios sobre o amor animal

Decidimos, após assistir pessoalmente a algumas experiências recentemente e ter, com isso, recordado de outras, a escrever o que podemos chamar de 'série especial' (aproveitando o chavão das reportagens temáticas) sobre o amor animal. Virão nas madrugadas de quinta para sexta-feira, em um total de quatro histórias. Serão quatro personagens, em um mesmo local - o condomínio -, envolvidos no enredo, cada um a seu modo: a gata, a cachorra, o papagaio e o homem.

O que estimula cada uma das histórias que prosseguirão aqui escritas, além do óbvio, parte de uma abstração que na leitura cada um terá, mas ao mesmo tempo tendo um eixo norteador comum: as formas de se relacionar.

Dito isso, então, é só aguardarmos!