Nove horas da manhã. O dia começa com sua rotina de evasão das pessoas rumo ao trabalho neste mês de fevereiro que também tem o início das aulas como intensificador do corre-corre diário. Passos daqui, passos dali, e os resquícios negros neste início de jornada resumem-se às sombras dos corpos e aos milhares de pneus que rumam nas ruas e avenidas afora, calorentas e lotadas de gente.
Três horas da tarde. O sol começa a dar seus sinais de cansaço e o condomínio demonstra estar mais vazio, ermo, sem gente, abandonado, à espera dos passos de quem passara o dia conquistando a vida e o mundo fora de seus muros. As pegadas aparecem sorrateiramente, como quem investiga um novo espaço, uma nova busca, um novo tesouro. A gata do jardim é finalmente percebida nas ruas internas com seus pelos negros brilhantes e algumas marcas de suas aventuras.
Sete horas da noite. A lua escondeu o sol e as estrelas tentam brilhar em céu recoberto por nuvens de verão que não precipitam e por nuvens de poeira e poluição que insistem em crescer, em época de fortalecimento de obras e aumento de veículos. As senhoras fazem suas caminhadas dentro do condomínio, depois de assistir a novela mais romântica e mais idealista dos horários disponíveis e criando o apetite para, se não jantar um bom prato de comida, um cuzcuz com manteiga e café bem quentes. Paralelo às caminhadas geriátricas, a gata do jardim desfila, sensualiza, mostra seu charme a quem queira vê-la e apreciá-la. Estrategicamente, dá o ar de sua graça com o seu canto: alguns tímidos miaus.
Dez horas da noite. Horário de silêncio. Lei do sono. Regimento interno do condomínio. Convenção social consolidada. Sem muito esforço, poucos são os barulhos que se ouvem no condomínio, exceto, do bloco de onde se escreve, ter as possibilidades de assistir à novela das "oito" sem precisar ligar a televisão, por ouvir 'osmoticamente' o vizinho do terceiro andar fissurado - e praticamente surdo. Mesmo assim, a gata do jardim não deixa de ecoar seu miado mais forte, demonstrando toda sua charmée da conquista. Há quem goste e observe o ritual, há quem ignore e siga sua rotina, há quem deteste e... reclama para a síndica. E a gata do jardim, nada a perder e não sendo inquilina moradora, não desce do seu salto para paquerar. Não perde a pose.
Nove horas da manhã. Novo dia começa e nada da gata do jardim. Embaixo do carro, ela descansa depois de uma tórrida noite de amor, sente as dores das mordidas em sua nuca e das azunhadas em seu corpo e deixa suas cordas vocais em banho-maria para a próxima noite de rituais.
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