quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ensaios sobre o amor animal: o papagaio gasguito

Costuma-se dizer que as horas passam e alguns fatos impreterivelmente acontecem cotidianamente: sete horas e o estresse no início do dia antes da rotina cansativa; meio dia e o burburinho para o almoço, dezessete horas e o trânsito caótico de volta para casa; vinte e uma horas e a tradicional novela das 'oito' a quem gosta de ficções sempre com os mesmos enredos e finais. Há, no entanto, quem se surpreenda com o inusitado. O inusitado que perturba, às vezes. Às vezes praticamente todos os dias às dezessete e meia horas.

A quem tem uma rotina diferente, fora do trânsito e dentro de casa com trabalho acadêmico, virtual, empreendedor/a do e no lar, gestão domiciliar e condominial ou outras atividades em que o escritório seja um cômodo de sua casa ao invés de um outro imóvel, é de se ter com bom grado a presença de animais a abrilhantar e contrabalancear com a chatice do dia-a-dia entre lesões por esforço repetitivo e cadeiras quentes. Nem sempre. Nestas impreteríveis horas e minutos, quase que diariamente, um sofrimento ao longe ocorre e muitos ouviriam, se tivessem chegado da sua rotina padrão.

Entre gatos e cachorros, entre canários e lagartos, entre sapos e formigas, ganha relevo o papagaio. É bonito, mora supostamente no terceiro andar, tem uma visão panorâmica bem interessante e parece fofocar sobre o que enxerga de longe com os seus pares em seu mirante, mais conhecido como apartamento. Como uma forma de denunciar a presença que o gato percebe pelo olhar aguçado e o cachorro pelo olfato megadesenvolvido, o papagaio institivamente paquera de outras formas. Ele grita.

De olhos fechados, imagina-se que o papagaio está sendo torturado com um isqueiro a queimar suas penas pela pontinha, sendo vestido por um espartilho, impedido de voar cortando as pontas de suas asas ou clamando por socorro a quem muito precisa de ajuda, mas... é apenas a sua forma peculiar de sensualizar frente a uma passarinha que fica em um bloco em frente ao seu, num andar inferior, estando ao seu horizonte que, da varanda, vislumbra a cozinha e a área de serviço alheia. Agora que se sabe porque ele grita, a impaciência predomina a quem convive indiretamente com esta forma de amar.

Ela, a passarinha, ao que parece, não dá nem uma abanada de asa para ele.

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