Claro que não posso esperar de um economista uma visão a respeito do espaço tal como estou habilitado a enxergar, discutir, analisar e, quando possível, intervir coletivamente. No entanto, não posso reduzir a visão de uma produção do espaço enquanto externalidade, tal como posta ontem por um economista em um programa de televisão na madrugada de domingo para segunda.
O entrevistado da semana no Canal Livre, programa noturno nos fins de domingo da TV Bandeirantes, foi o economista Delfim Netto. A primeira curiosidade em questão é: por que um dos jornalistas seguidamente o chamava de ministro (sim, ele foi Ministro, mas faz mais de 25 anos!)? Parece uma reprodução da mídia e de algumas muitas pessoas quando se referem ao Lula como presidente Lula. No tocante ao debate em questão, o sistema econômico mundial e seus rebatimentos no Brasil, alicerçando as discussões em torno do mundo financeiro, da crise europeia e a especulação imobiliária na produção de valores concretos e de insegurança de investimentos - e no sistema econômico, fragilizado por este agente desde a década de 1990 - em bolsas de valores.
Alguns excertos soam de forma tão interessante quanto reducionista - e, em uma condição crítica em torno do espaço, até mesmo absurda. Vamos nos deter, talvez, a pior delas: a relação entre a economia e os dilemas do saneamento básico em solo brasileiro. Em tempos (e visões) econômicos, equacionando as perspectivas de um mundo (e um país) melhor, as formas de resolução se encontram em... investimentos. Trazendo ao debate problemas urbanos e rurais (portanto, espaciais) crônicos, como o saneamento básico, o Brasil, para o devido economista, conseguirá superar tal angústia da sociedade através de investimentos públicos e privados, cuja natureza, condição e expectativa produza externalidades para atrair... mais investimentos. Teríamos, com essa interpretação, os problemas sociais resolvidos com o objetivo de obtenção e multiplicação de lucros e não o seu objetivo fundamental, ou seja, a qualidade de vida para a população. Claro, salientando que o investimento público nunca deva ser de natureza privatista ou com a expectativa do lucro sem uma razão e função sociais que as subsidiem e justifiquem e, portanto, concorram para a execução de ordem pública com tal finalidade.
Uma forma de compreender o escrito é imaginar uma localidade carente de serviços públicos, que pode ser ou a Serra de Carapicuíba, em São Paulo, ou as comunidades ribeirinhas no bairro Genibaú, em Fortaleza, cujas condições são bastante precarizadas em razão da ausência ou grande indisponibilidade de atendimento público de água e esgoto, moradia digna e disposição de trabalho e renda regulares e formalizados. Uma parcela considerável de seus habitantes estão na informalidade do trabalho - sendo ambulantes, camelôs ou fazendo bicos - e na informalidade da moradia - estando em condição de risco em sua ocupação residencial precária. Resolver essas questões não seriam uma necessidade social, mas uma possibilidade de executar investimentos públicos para atrair investimentos privados; com a (pseudo-)resolução deste problema, externalidades são criadas e, assim, o espaço torna-se valorizado para a reprodução do capital. Só não sabe o economista que, com a valorização da terra urbana por tais externalidades, o problema social não apenas não é resolvido como é intensificado, pela inacessibilidade dos pobres ao valor de troca imposto à terra.
Com tantas externalidades no plano do pensamento e da criação, falta ao economista em pauta olhar para o exterior de sua janela e não apenas ver o espaço: é preciso vivê-lo.
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