segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CBF: Celeção Brasileira de Farejo (sic!)

Encerra-se mais um ano "letivo" da CBF - mais conhecida criticamente como Celeção Brasileira de Farejo (sic!) -, de maneira que as bases chamam mais a atenção que a protagonista da turma e os aspectos políticos inerentes a ela clamam mais debates que a convocação para um jogo... mas, aliás, que jogos?

Cotidianamente, em tempos passados, este esporte, com cujos fãs majoritariamente homens - e por isso à época o futebol era associado ao machismo (e sua reprodução em relação ao futebol feminino tanto é combatida, de forma bem feliz e que por isso também associado a produtos voltados ao público masculino , como cerveja, vestuário, calçados, para ficarmos em exemplos ilustrativos) -, atraía focos no mundo do trabalho a cada jogo, anunciado com forte tom emotivo e com o lacônico ufanismo oriundo do vínculo da paixão nacional ao regime militar com a conquista de 1970 e o hit ecoado naquelas paragens; as firmas paravam, contando ou não com o apoio do patronato, por noventa minutos a espera do gol do camisa 9, 10 ou 11. Nenhuma outra camisa era reprimida, todavia, na satisfação dessa vontade.

Isso me faz lembrar a Copa de 1994 e meus poucos idos, com a família reunida em frente a televisão: crianças nas bordas dos sofás e mesas de centro, homens sentados nos sofás e cadeiras, mulheres fora da sala, geralmente conversando sobre outra coisa qualquer. Era quase uma hierarquia construída. Na final contra a Itália - ainda hoje o jogo mais tenso e emocionante que já acompanhei -, o misto entre a descrença e a esperança soerguiam lance a lance, até que nos penais havia quem não quisesse ver, os curiosos, os apaixonados e as pessoas que preferiam apelar às divindades. Brasil campeão, era bonito de se ver as ruas amontoadas de bandeiras.

Por um lado feliz, vemos que o futebol tem se tornado mais democrático e democratizante quanto ao seu acesso, visto que temos cada vez mais mulheres torcedoras e tão sagazes em relação ao futebol a deixar muitos marmanjos no chão; por outro, essa ação democrática/democratizante é paradoxal, haja vista a realização do esporte se tornado mais e mais impositiva, truculenta, observando os exemplos da distante África do Sul e do cotidiano Brasil repetindo as mesmas ações. Ao lado disso, o valor àquilo que as pessoas antigas tanto referendavam hoje assume outras perspectivas, outras diretrizes: a amarelinha. Ao caso brasileiro, talvez ela assuma a mudança de paradigma que o futebol tem absolutizado: o valor de uso se consolidando em valor de troca.

Como tornar isso concreto? Analisando o ano "letivo" deste processo, de modo que o selecionado principal da CBF realizou 12 jogos amistosos (em datas Fifa) em 2011, além da Copa América na Argentina e da controversa Copa Rocca contra a Argentina, em jogos de ida e volta. Diante disso, em relação aos jogos amistosos, apenas dois (Holanda e Romênia, em despedida a Ronaldo, praticamente um rachão!) foram realizados em casa, com mando efetivo de campo em território nacional. Outros quatro jogos foram realizados "em casa" europeia, principalmente na Europa e no Oriente Médio, com a justificativa do deslocamento dos jogadores vinculados aos clubes europeus, além dos jogos como visitante (mais três).

Como proposta de preparação à Copa do Mundo e Copa das Confederações - porque não temos um foco à Seleção Olímpica, que é um tanto diferente das seleções de base -, os adversários insólitos não empolgaram (Egito, Gabão, México, Costa Rica, Gana e Escócia) e os fortes adversários impuseram seu jogo e as fragilidades nossas, principalmente a Alemanha. No entanto, curiosamente, observando os adversários e os locais de jogo - e associando a isso a marcação dos jogos realizado por uma empresa vinculada à CBF -, uma questão de ordem tem seguido o curso anual: expansão de mercado da camisa amarelinha; fazer com que o mundo a vista - por obséquio, consumindo-a.

Não resta dúvidas - e a isso críticas advirão - que dentro de campo o selecionado brasileiro não cumpriu com todos os objetivos pensados pelos/pelas seus/suas torcedores/as, mas à CBF, sem dúvida, abriu novas e reais possibilidades: pacote 11 jogadores + camisas amarelinhas = altos rendimentos se concretiza para além das nossas tevês ultramodernas!

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