sábado, 5 de novembro de 2011

Finados, Fortaleza e Supermercado: como relacionar?

Entrada de um mês, recebimento de crédito para as aquisições do sustento mensal e a necessidade batendo a porta de casa tangente ao pão nosso de cada dia levam-nos a realização de inúmeras atividades diária e cotidianamente. Em Fortaleza, a intensa movimentação no trânsito insuportável da cidade tanto pela sua malha viária deficiente quanto (e principalmente por isso, entre outros motivos) pela precariedade do transporte público e a enorme quantidade de carros particulares parecem dar à cidade um ritmo tão forte que mata um pouco de nós dia após dia.

Novembro pede permissão para se aproximar e, com eles, as lembranças de quem não volta mais e permanece constantemente em nossas vidas. Assim como o trânsito alencarino. Em um novo ritmo de mobilidade e congestionamento, essa permanência da insustentabilidade agora adentrou o supermercado. Era dois de novembro e a quantidade enorme de pessoas e carrinhos em um supermercado era tão impressionante quanto o tamanho de suas filas. A estratégia a se tomar seria: meu filho, pegue o carrinho e vá para a fila, que enquanto isso eu vou pegando os produtos.

Ao enfrentamento da enorme fila, na não realização da hipótese abstrata que não se materializou, mais de meia hora foram repartidas com a espera de dez pessoas a nossa frente. Enquanto isso, entre uma saída e outra em busca de algo esquecido, as piadinhas típicas ecoavam: "a Avenida Borges de Melo agora é aqui dentro!", "o trânsito de Fortaleza é um inferno e agora estamos na filial!", entre outras. Até que uma circunstância aparece em voga e um homem conversa comigo:
- Tá difícil mesmo essa cidade, né? Ela tem realmente assumido sua versão de metrópole...
- É, mas essa condição era inerente a ela há algum tempo, não é pela população, mas...
- ...mas hoje é bem mais evidente, o trânsito é escroto. Já experimentou andar no Centro de carro?
- Não arrisco, sei que é bem complicado.
- Mais complicado ainda quando os ambulantes invadem a rua e a calçada, não há como se locomover.

Esse diálogo entre um homem de meia idade e eu - que não dei nenhuma indicação de minha orientação política e da formação profissional - parece evidenciar não apenas uma realidade em discussão na cidade e que não tem alcançado a população (falamos do que estão chamando de Fórum Viva Centro, iniciativa da Câmara dos Vereadores e apoio da Prefeitura de Fortaleza, do CDL e do Jornal OPovo), mas o seu contrário, formas de matar uma cidade que tem se autoflagelado pela sua própria população (parte dela, claro): a sua negação como forma de criticá-la.

A sua negação parece ser um traço muito mais forte em relação ao contracheque caído na conta corrente no começo do mês e o novembro trazendo consigo a lembrança saudosa dos finados; é inclusive uma forma de não ter o que resguardar.

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