A provocação nas perguntas expostas apareceram em torno da atual conjuntura que toma parte da mídia (e de forma parcelada, fragmentada) a respeito da Universidade de São Paulo lançada por um programa religioso do concorrente do Cidadão Kane. Muito além das parceladas informações em torno dos fatos históricos (e espaciais, por que não?), o que parece necessário amadurecer no debate não é a presença ou não de forças militares na Universidade - seja ela a USP, a Uece, a Unilab ou a Unir - ou do uso de drogas - e aí a reflexão sobre o que é ou não droga e sua licitude e negação, já que o álcool é permitido - nos campi, mas aquilo que está neste processo.
À discussão colocada pela mídia, em formas de enquetes e perguntas objetivas do tipo "você é a favor ou contra?", forjam-se maniqueísmos tangentes a condições e conjunturas cujo elemento mais importante a se considerar está justamente no liame, no processo. Ao meio disso tudo, um capítulo apresentado foi uma edição inteira do programa "Fala que eu te Escuto" dedicado ao tema, interrogando os/as fiéis telespectadores/as sobre tal episódio - e nada surpreendente que todas as pessoas direcionando sua opinião à transgressão de regras, um rompimento moral, focando o uso da maconha. Os usuários foram postos na berlinda e apenas um dos lados foi questionado; apenas um lado, o outro, está sendo ouvido.
A história não teve seu início neste epípeto. Uma primeira prerrogativa foi apresentada em nota¹ pela Professora Ana Fani, do Curso de Geografia desta Universidade, relacionando a precarização da universidade em sua totalidade e a presença da polícia, de igual maneira ao escasseamento de incentivos de pesquisa e o rareamento do tempo de reflexão acadêmica (diferente por natureza do tempo da produção), diante da qual as condições da Universidade de São Paulo - e não apenas ela, embora sua dimensão internacional amplie sua polarização - tem experimentado. Ela se posicionou a favor das manifestações enxergando a totalidade da questão e não apenas o fato in situ. A universidade foi posta ao debate e apenas um dos lados foi questionado; apenas um lado, o outro, está sendo ouvido.
As opiniões contrárias - e prenhes de ideologia contrária, vocês devem saber qual é - emergem com um próposito também de totalidade, oriundos do fato e proporcionando voos mais altos. O que dizer de um jornalista² que não conhece a produção geográfica no todo e, ao invés de discuti-la, desqualifica-a com a autoridade que não lhe é conferida? O voo mais alto não foi vencer a professora no debate, mas aniquilar a Geografia da vida escolar e cotidiana na formação crítica da sociedade, pondo-a como inútil e desnecessária. Aliás, o que tratamos ideologicamente como autoridade? Qual a autoridade, por exemplo, que se estabelece entre uma tropa de choque três vezes superior ao número de estudantes em uma tensa relação dentro de um campus universitário? Qual a autoridade posta em exercício quando muitos daqueles apontam veridicamente sua opinião à aplicação de punição aos/às estudantes usuários de maconha - que muitos alegarão como porte de entorpecentes e segundo a lei, é proibido - e, principalmente, aos atos de manifestação? Proibir as manifestações, agora? Quando estão afirmando que é um fato histórico de transformação de uma realidade, temos uma verdade, porém com argumentos diferenciados: inicialmente, o que está na mesa de xadrez não seria a relação de um possível e ampliado debate sobre um assunto (a descriminalização das drogas ou, especificamente, da maconha) mas, contraditoriamente, o seu contrário, a saber, a proliferação de um debate cada vez mais deliberado (a criminalização de movimentos sociais).
Esse contrário vem se consolidando historicamente na formação brasileira, em que desde a segregação racial e regional discriminatória que temos constantemente presenciado e que alguns lutam arduamente contra isso, até a piada insalubre é realizada sobre uma triste realidade. Atribui-se a questão dos movimentos sociais a um determinado grupo - e dependendo da fonte da opinião, considerando-o um grupo de baderneiros -, sem notarmos que a organização coletiva dos indivíduos também é uma construção social em busca de suas garantias, de seus direitos: os movimentos estudantis, os movimentos grevistas, os movimentos de reivindicação, os moradores de condomínios em assembleia, os moradores de uma comunidade mobilizados. Daí, diante dessas diferenças, o que vem à tona é uma dimensão política - que repercute também, é claro, ao capítulo de uma narrativa sobre a vida real em andamento em São Paulo.
Fica ausente, portanto, ausente na exposição tanto ao esclarecimento geral quanto à construção de novas possibilidades a compreensão do processo que, de um lado, tem a precarização da universidade (e da vida) e, de outro, seu tratamento de forma unilateral e na base da força. Não estamos falando de meio termo, de ponderação ou de consenso, mas de processo. Até porque fica óbvio que as questões ali evidenciadas não envolvem apenas um baseado e uma tropa de choque como antítese. Não se resumem a isso - ou não deveria ser resumidas, como parte da mídia o faz ao fragmentar, propositadamente, para fins de notícia, o ocorrido. Há mais a se saber e a lutar...
E a pergunta que foi feita entre parênteses: e o espaço diante disso tudo? Ora, se o tempo histórico nos mostra a construção de segregação e de preconceitos presente na nossa formação, é claro que ela se materializa em algum lugar. Em algum espaço!
Por fim, vale a pena ler um relato de alguém que se diz despolitizada³.
¹ http://www.facebook.com/note.php?note_id=258372657547134
² http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/os-problemas-obvios-de-alfabetizacao-de-uma-professora-de-geografia-da-usp/
³ http://www.facebook.com/notes/shayene-metri/desabafo-de-quem-tava-l%C3%A1-reintegra%C3%A7%C3%A3o-de-posse/233831886679892
Nenhum comentário:
Postar um comentário