sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Não gosto, mas eu quero

Parece coisa de menino birrento. Mamãe pergunta se eu quero comer brócolis com carne de sol e logo faço careta com a negação da comida, por mais que goste de carne de sol. Foi o brócolis. Mas bem que queria aquilo no prato - eu separaria o brócolis do charque e, talvez, até poderia experimentá-lo.

Essa é a sensação minha em relação à São Paulo. Não gosto daqui - é de onde escrevo: cidade cinzenta, pesada, nebulosa, tensa, lenta, longa, grande, ampla, distante. Estou, mesmo assim, aqui, e porque quis. Quis por uma necessidade pouco compreendida por muitos e muito ressalvada por poucos. Entre os conjuntos de dez prédios iguais, feitos caixas de sapato em pé sem mesmo alterar o número de cada par, ainda assim existem elementos, pessoas e circunstâncias que fazem-me não apenas dar três horas de viagem aérea, mas mais duas terrestres em solo paulista.

Parece coisa de menino birrento. Fazer cara de desgosto, mas sorrir com tudo isso; ficar com a vista e o corpo cansados, mas se recusando o repouso; usar as mesmas roupas com o clima nordestino e gabar-se de não sentir frio sentindo frio; sentir-se assaltado com o custo elevado de vida - e dos estudos -, mas satisfeito pelo investimento no material alcançado.

Essas são as sensações de onde escrevo, daqui, da paulicéia (com ou sem aceito no ditongo?) desvairada. Tal como o brócolis, nego as oportunidades para passeio pela perdição que ela pode proporcionar, mas indiretamente serei frustrado em não experimentar a noite paulistana; tal como a vontade de experimentar, está aí a própria cidade e sua rotina, seu ritmo e seu cotidiano - nos ônibus, nos metrôs, nas ruas.

Eu não gosto, mas eu quero.

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