sábado, 6 de agosto de 2011

Os festejos

Era um sábado a noite e a noite prometia. Depois de uma semana atribuída aos afazeres acadêmicos - que diga-se de passagem, quando com dedicação, são mais densos e mesmo cansativos que qualquer exercício escolar - e de monotonia fora dos muros da universidade, visitar uma outra faculdade até que traria novos ânimos, novos meandros a percorrer e, também, novas possibilidades de satisfação pessoal. Neste sábado haveria a calourada de Arquitetura, inspirada nos anos #60.

Como forma de me dirigir a quaisquer recantos da cidade, sigo no transporte coletivo saindo das proximidades do Mercado dos Pinhões, no extremo leste do Centro da cidade, rumo ao outrora distante sítio do Benfica, ficando a Arquitetura em terreno anteriormente reticente à família Gentil. Desta vez, fora do comum, parti sozinho. Estarão todos lá, pensava, acreditava, esperava. Não estavam. Mal chegando no recinto e um 'batizado' é executado: fico sujo de barro na camisa amarela. Depois de ficar cheiroso, percebo que era sabonete. Daqueles que faziam a festa de nossos banhos por serem extremamente lisos e que hoje são raridade nas prateleiras. Sim, falo do pheboo.

Ali, encontro uma moça muito simpática e por meio de quem conheço outras pessoas, até uma amiga com quem havia combinado chegar. Envolto destas pessoas, revejo paixão antiga e que sempre me desperta um furor interno.  Mas nada além disso, feliz ou infelizmente. Depois de me conformar, fecho os olhos abstratamente e começo o primeiro dos festejos, solitariamente, mas rodeado de pessoas. E assim esbaldamos todos até a retirada obrigatória, não exatamente ao fim da festa, porém com as ordens superiores. Sempre elas a atingir o ápice dos bons momentos.

Para retornar o caminho de casa, o coletivo não passava mais, perdi o limiar da razão e a hora do busão. Senti inveja naquele momento em não ter bicicleta e pedalar solenemente - e foi a partir daí que obtive a razão em procurar obtê-la, fim realizado três meses depois. As pessoas iam e outros sons vinham, agora dos carros a perturbar o juízo. E eu ficando. Ficando sem destino, sem caminho e sem retorno, até que a amiga com quem me encontrei ofereceu carona. Eu, sem dinheiro para a bandeira do taxi, sugeri carona até o Centro, pelo caminho da bandeira dela e das amigas. Negócio fechado e começaria, dez minutos depois, o segundo dos festejos - e, para mim, o mais interessante: andar, em plena madrugada, pelo Centro de Fortaleza.

Descendo na Duque de Caxias, dois quarteirões da Faculdade de Direito, começo o longo caminho de volta ao outro lado do Centro e, enfim, em sua fronteira, minha casa. Eram quase duas da manhã e o silêncio ecoava nos boulevards. Apenas o burburinho dos bares mais populares e sem o requinte, servindo o essencial e o básico - e ainda confiando o velho fiado e a cadernetinha - destoava do habitual silêncio que no claro do dia inexiste ali. Mesas de plástico e a dose de cachaça eram a paisagem nos olhares do festejante. Irrompe negativamente um ronda policial aliciando prostitutas e travestis para diversão perversa e risadas maquiavélicas, ao passo que andaricava nervoso e medroso por esse motivo.

Se fosse limpo, daria gosto de ouvir o Pajeú correr no Parque das Esculturas, no boulevard Dom Manuel; se não estivesse nublado, daria prazer em ver as estrelas brilhando no céu ao invés das luzes da Coelce; se não fosse o pólo elitista da boemia imposta nos arredores do Dragão do Mar, era surpreendente o brilho flamejante ao fim, tal como a luz no fim do túnel; se fosse católico, reverenciava a belezura do Seminário da Prainha com um sinal da cruz; se fosse de dia, não daria para dizer que a Avenida Monsenhor Tabosa também é um corredor de vento; se não estivesse fechado, eu pararia no Pagode da Mocinha, daria uma saudação carinhosa e pediria uma cerveja; se eu atravesso a João Cordeiro, eu saio do Centro, chego em casa e o meu festejo termina. Uma rua é capaz de mudar a ordem das coisas, põe em dúvida a paisagem avistada durante uma caminhada, mas não transforma o vivenciado ontem e hoje... para sempre.

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