sábado, 24 de dezembro de 2011

Noite Feliz

Algumas questões norteadoras percorrem este dia específico: se para alguns é cercado de misticismo e crenças e, para outros, sendo a oportunidade de satisfação de consumismos, há quem o torne diferente e o faça momento de avaliação do dia, do ano, da vida.

2011 está chegando ao fim. Para muitos, um ano execrante, cheio de problemas, crises, pressões, dilemas, angústias, contradições. Há quem ache que 2011 tenha sido um ano excelente, plenamente frutífero e envolvido por muitas conquistas pessoas e do seu cotidiano imediato. Há quem mude de opinião e, depois de passar o ano afirmando que estava muito exaustivo, encerra com bons adjetivos, otimista. Como eu.

2011 foi um ano de passos adiante que foram dados, novos terrenos a serem percorridos e novos desafios a serem experimentados. Por esses novos passos chegamos novamente a Sobral, mas também alcançamos Goiânia; por eles, conhecemos novas pessoas e reencontramos algumas do dia-a-dia; por eles, criamos novos laços de sociabilidade mesmo em um ambiente extremamente competitivo e, mesmo, escroto; por eles, matamos a saudade de pessoas queridas que estão em terras distantes e um abraço e uma conversa trazem como consequência boas risadas e minutos de conforto; por eles, temos quem nos conduza aos terrenos menos áridos e menos alagadiços e que nos ajude a seguir nossa trilha ultrapassando os percalços naturais deste desafio.

2011 foi um período de reencontros e o estabelecimento de tentativas de manter os vínculos em dia. Com isso, os mesmos aniversários dos mesmos amigos foram frequentados com intensidade e muita alegria, mas também novos convites e novos espaços foram descobertos e vivenciados ao anoitecer e as belas companhias da lua e amigos que sempre estarão presentes; com isso, a família pareceu mais presente, desde aqueles que moram bem perto e onde se almoça um gostoso baião de dois em um dia de domingo quente até mesmo parentes de outros Estados que nos visitam e nos fazem dedicar alguma parte de nós para sua satisfação em terras forasteiras; com isso, a incessante vontade de estar perto de quem você gosta - e de querer realizá-la plenamente; com isso, a expectativa de ter no imaginário e no coração pessoas que o mundo material não mais a contempla, mas que a presença é constante e eterna.

2011 é tempo de afirmações e reafirmações políticas, mas sobretudo pessoais. Época de ascensão, afirmação e novos meandros profissionais e engajados a serem desbravados e passar a enxergar o que está na frente de nossa escola como uma realidade de nossa vida; época de consolidação de convívios, amizades, sociabilidades, humanidades, biodiversidades; época de divulgar os Urbanos, os Renans, os Rodrigos, os Patricks, os Baratas, as Renatinhas, as Sabrinas, os Henriques, os Thiagos, os Alexandres, os Josués, as Sharons, as Andre(i)as, as Lívias, as Alines, as Camilas, as Sarahs, as Nayanas, os Leos, as Thamires, as Valérias, as Monicas, as Clícias, as Sílvias, as Giulias, as Kalizas, as Rebecas, as Victas, as Gildas, as Virgínias, as inúmeras Anas, os Cláudios, os Sérgios, os Josélios, as Sheydders, as Carols, as Rafaelas, as Iaras, os Pedros, as Eduardas, as Elis, as Cláudias, as Vals, as Danis, as Dillys, as Lucianas, as Iurys, as Suerlandras, as Janetes, os Joãos, os Kauês, as Natálias, as Lucimeires e muitas outras pessoas, a quem dedico minha amizade, meu carinho, minhas saudades, minhas graças.

2011 é ano de saudades e de agradecimentos; é ano de encerramento e despedidas; é ano de (re)construção e manutenção; é a porta de saída para uma outra entrada; é ano de dizer, com toda a metáfora (im)possível, para que não apaguemos a luz, que assim a esperança e a beleza vão embora e fica o medo e a insegurança. E a noite não fica mais feliz como a gente quer plenamente se realiza em cada um de nós, hoje e sempre!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Somos importantes!


O mundo do trabalho é permeado de contradições, de injustiças e de desrespeito na contemporaneidade. Podemos observar com muita notoriedade a desvalorização de grande parte das profissões, sobretudo aquelas voltadas para as áreas sociais e humanas.

A mídia e os meios de comunicação provocam um descaso com as Ciências Humanas e Sociais, colocando falsas afirmações e manipulando o verdadeiro papel destas na sociedade. Como exemplo, a revista Veja na edição 2074 - ano 41 e nº. 33, de 20 de Agosto de 2008, publicou uma matéria intitulada “O inssino no Brasiu è otimo” onde faz críticas severas aos professores de História e Geografia, por usarem conteúdos “doutrinários” e ideológicos em salas de aula e que estão presentes nos livros didáticos. Afirmam também que Paulo Freire não contribuiu em nada para a educação no Brasil, afirmação essa típica da mídia corporativista que domina os meios de comunicação no país.

No Cariri cearense, a História, a Sociologia, a Geografia, a Filosofia e a Educação dentre outras, são as que são mais rejeitadas e sofrem desvalorizações por parte dos estudantes que prestam vestibular nas universidades. O baixo índice de disputa pelas vagas é uma prova disso. Porque será?

A sociedade em que vivemos, que é em sua essência capitalista, baseada na competição, no lucro e na individualidade, tende a produzir a consciência dos indivíduos, os quais travam uma intensa “batalha” para conseguir um lugar nas universidade em um curso que supostamente lhe dará a garantia de “um futuro melhor”. Como exemplo, é só observar a concorrência para os cursos de Medicina, Direito, Engenharia(s), e Enfermagem e compará-los com os das Ciências Humanas e Sociais. Sem dúvida essas são áreas de grande importância no contexto social, mas convido-os a refletirem o porquê que estas se situam no “topo” da pirâmide hierárquica das profissões no Cariri e no Brasil.

As próprias escolas da região, fundamentalmente as particulares, estampam em outdoors e em propagandas no rádio e na televisão, os seus alunos que passaram nos vestibulares. Exaltam os nomes e quantos deles passaram nos cursos de Medicina, Direito, Engenharia, Enfermagem e outros cursos “mais importantes”. Quem passa em algum outro curso (Geografia, História, Ciências Sociais, Filosofia, Pedagogia, etc) não têm sequer seus nomes nem fotos divulgados nos panfletos, rádio, TV ou publicidade quem tentam mostrar a “qualidade” da escola no intuito de atrair novos estudantes para o ano seguinte, pois “garantem” seu “futuro melhor” e sua vaga na Universidade (sic). Talvez esses alunos (que passaram nas Ciências Humanas e Sociais) não sejam importantes devido ao curso em que passaram, exceto pela mensalidade gorda que pagavam durante os anos de estudos nas escolas.

Por ironia, de acordo com o Jornal O Povo, em matérias publicadas em 18 e 19 se novembro desse ano, o MEC divulgou que suspenderá 50.000 vagas de IES (Instituições de Ensino Superior) que tiveram nota 1 ou 2 no ENADE  2010. Serão suspensas 516 vagas de 16 faculdades de Medicina no Brasil, todas particulares, pois não alcançaram a nota mínima exigida, que é 3. Nossa saúde está em boas mãos, heim!? No Ceará, no total, serão 8 Universidades penalizadas (7 cursos de Medicina e 1 de Direito) e que não poderão abrir vagas em 2012, sendo uma delas no Cariri (o curso de Direito) e as outras de Fortaleza, sendo todas elas particulares.          

Bom, por fim, é necessário afirmar a grande importância que os profissionais da educação (os cursos de Ciências Humanas e Sociais citados acima) têm para a sociedade caririense e brasileira como um todo e valorizá-los ainda mais pelo seu papel social, valorização esta que está sendo buscada através de protestos, movimentos populares, greves entre outros. As escolas deveriam por mais evidência no papel fundamental do Professor na sociedade e não apenas às profissões que se acham no topo da pirâmide hierárquica, pois assim estariam contribuindo para a construção de uma sociedade com valores sociais pautados na solidariedade e na coletividade.

Fonte: Jornal do Cariri, 13 de Dezembro de 2011, ano XVI, n° 2512, p. 02.

Cláudio Smalley Soares Pereira
Graduado em Geografia pela URCA

domingo, 18 de dezembro de 2011

À mestre, com carinho

Lembremos de nosso tempo infantil de escola: temos birras estúpidas com alguns/mas professores/as por motivos pífios e é momento do reconhecimento societário da criança que ainda não sabe conviver em sociedade para além das relações familiares. Época de descobrimento de novas pessoas, novos mundos, novas oportundiades de vivências e de experimentar o mundo que se abre no horizonte.

Lembremos de nosso tempo adolescente de escola: temos birras estúpidas com alguns/mas professores/as por motivos pífios e é momento de afirmação societário do/da adolescente que pretende reconhecer-se no mundo que descobrira em partes e ressaltar sua individualidade frente aos confrontos diante daquilo que lhe é diferente. Época de construção de valores e de escrever o futuro que se pretende seguir em toda a vida. Ou então refazê-lo.

Lembremos de nosso tempo de universidade: temos birras estúpidas com alguns/mas professores/as por motivos pífios e é momento de formação de um/a profissional o/a qual enfrentará brevemente a selvageria do mundo do trabalho e, na conformação de suas matrizes teóricas, metodológicas, acadêmicas frente aos valores erguidos em tempos passados, consolida um ser adulto. Época de forjar novos passos a serem dados.

Lembremos de nosso tempo para além da universidade: temos birras estúpidas com alguns/mas professores/as por motivos pífios e, no entanto, diante de todos os momentos ultrapassados, são erigidos adjetivos concatenados com as birras que transformam aqueles/as em queridos/as companheiros/as, amigos/as, pessoas de bem. Época de superar desafios e experimentar outros; época de erguer-se ao céu e tanger novos rumos; época de olhar para trás e avaliar os traçados percorridos, as birras desenvolvidas e os abraços ainda a serem dados.

Lembremos de nosso tempo: temos birras estúpidas com alguns/mas professores/as por motivos pífios, mas, no mais profundo batimento do coração pulsa sentimentos bons a serem cultivados para todo o sempre: o companheirismo: para frente, para trás ou para qualquer dos lados, os passos dados e aos que virão, a jornada continua e continuará muito bem acompanhada. Mesmo virtualmente.

Lembremos de nósso tempo: somos companheiros, na brisa ou no calor, porque a gente se dá bem; um novo traçado percorrido se realiza e os braços continuam dados. Parabéns!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O problema não é com você, é comigo

O que é fruto de desentendimentos amorosos, familiares e fraternos agora é pecha de propaganda: algumas pessoas avaliam-na como um tiro no pé (porque a propaganda parece assumir que o produto precisou mudar), enquanto que outras creem-na criativa e formidável. Enquanto que o Novo Palio é reproduzido nas tevês e na camisa de equipes brasileiras pela Fiat patrocinadas, o nosso foco retorna para a frase: "o problema não é com você, é comigo".

Em um diálogo com pessoas cujo assunto é "discutindo a relação", acontecem uma série de debates em torno de algo quase sempre muito pequeno à proporção do calor do momento. O pior é que, neste ínterim, ninguém dá o braço a torcer. Cada um com sua míngua de razão, presa nos braços como quem prende o filho para não ir à guerra, o garrafão de água no deserto ou a garrafa de vodka em fim de festa de quinze anos: ninguém larga!

Nessa conjuntura, perguntas que já saturam a paciência aparecem às pessoas de meia idade: "cadê a namorada?" "cadê o namorado?", ressaltando as questões de gênero e suas orientações que quem lê e de quem escreve. Dependendo da sua resposta, a frase-título da crônica emerge em forma de questionamento: "por quê?"

Tentando colocar um ponto final nisso, a resposta que sai pela boca é "o problema não sou eu, as pessoas não querem nada sério...". Mas somos capazes de nos fazer a pergunta "o problema sou eu mesmo?"?

Talvez não, com o receio do tiro no pé que a Fiat não teve. Ela se arriscou.

domingo, 27 de novembro de 2011

Imagem da Semana, parte XI

Olá Curiosos! Olá Curiosas!

Há exatamente uma semana, houve o registro desta imagem. É a Catedral Metropolitana de Fortaleza, erguida sob a antiga Igreja da Sé - e por isso popularmente conhecida como Catedral da Sé.

É, desde muito tempo, ponto de referência espacial no Centro de Fortaleza, inclusive ao núcleo urbano. Atualmente, tanto o é a nível de mobilidade de pessoas e do turismo local quanto de sobrevivência econômica informal.

Foto: @felipesilveir4

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Imagem da Semana, parte X

Olá, Curiosos! Olá, Curiosas!

Neste retorno às Imagens da Semana, uma fotografia retirada em reportagem do dia 22 de novembro de 2011 no Diário do Nordeste retratando uma ação ao mesmo tempo curiosa e muito, muito criativa.

Chamam-na de intervenção. Pelo conteúdo da ação, é uma manifestação em torno da consciência negra, retratada no dia 20 de novembro tendo como alegoria Zumbi dos Palmares e sua manifestação sobreposta a data (avenida) em que nos dias atuais se registra a libertação negra, 13 de maio, data de assinatura da Lei Áurea.

Mais que uma simples manifestação, essa ação, autônoma e desconhecida pelo Blog, retrata uma questão a ser debatida de forma mais ampla: 13 de maio tem simbologia de libertação negra na sociedade? Há quem proponha, casual ou firmemente, uma mudança de data do dia 13 de maio para 20 de novembro. Tanto do tema quanto da avenida.

Que tal? (Não) sentem-se e fiquem à vontade.

Foto: Diário do Nordeste, 22/11/2011

sábado, 19 de novembro de 2011

Perto

As pessoas tem a capacidade de serem norteadas em suas vidas, de diversas formas, para o bem, para o mal. Nesta guisa tem sido pontos de pauta em políticas públicas o tema das drogas, mas, longe de querer estacionar minha atenção a este tema - não o menosprezando, porém escrevendo sobre algo mais leve -, quero abordar outras maneiras de sermos encaminhados por ações ou elementos de fora da gente.

Há quem pondere seus atos pela poesia - e aí destaca-se a moda nas redes sociais o apelo ao Caio Fernando Abreu -, quem aposte seus rumos ao horóscopo diário - e vale ressaltar isso como bem diferente do guia astral, do significado da astrologia e dos zodíacos na vida de cada pessoa -, todavia uma forma bem mais comum, para o bem, para o mal, é sem dúvida a música. Ou não existe aquele momento de ouvir uma música quando se está bem feliz e querer explodir (e associar a isso músicas mais agitadas) e, em seu contrário, músicas "melôs" para os dramas pessoais?

Especificamente aqui e agora, o nosso caso é um duplo contrário, já que não ponho uma música agitada para um momento feliz e a utilização de uma música mais dramática para uma situação ótima seja na verdade sua desconstrução e posterior reconstrução. Não é uma crítica, é uma... digamos... analogia ao contrário, de forma metafórica, conquanto que corrobore numa perspectiva real e concreta. Em uma determinada música de Arnaldo Antunes, existe uma narrativa de uma pessoa que está distante de outra e que quer dela se aproximar; aparecem externalidades que impedem essa aproximação, de tal modo que a impossibilidade acaba realizando um derrotismo, uma condição sine qua non inexpugnável.

Não é longe. O nosso contrário é cada vez mais termos, mesmo que imaterialmente, essa aproximação por perto: se lá o celular não pega, aqui o celular funciona todos os dias com uma mensagem vespertina; se lá o comércio fechou, aqui ele é intenso e ela vive vizinho a ele; se lá nenhum e-mail chegou, aqui as mensagens são fluidas e instantâneas; enfim, se lá dentro deste corpo fechado há um vácuo, aqui, ao contrário, existe o cheio, o constantemente sendo cheio, o cultivado.

Hoje - e não só hoje - eu posso estar até fisicamente distante desta pessoa, muito minha amiga e querida aos montes, entretanto, diferente do roteiro antuniano do encontro contra o qual o impossível prevalece, aqui estamos cada vez mais próximo. Enfim, se Arnaldo Antunes canta Longe, eu ensaio Perto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sorria: você está envelhecendo

O tempo passa lentamente no sentido da natureza, esse é o nosso olhar, nossa visão antropocêntrica de mundo. A vida na natureza plena dura bilhões de anos e nós estamos inseridos em parte desses ões de tempo e de vida, assim como minimamente o tempo voa e em um piscar de olhos a durabilidade ocorre da mesma forma que uma reação animal: a vida começa, a vida acaba.

Esse paradigma recrudesce em outro que certamente é enorme a muitos. Desde a lembrança das aulas clássicas e essenciais de Biologia (nós nascemos, crescemos, nos reproduziremos, amadurecemos e morremos) e Filosofia (ser ou não ser, essência e aparência, real e virtual) até o cotidiano materializado, o célebre bordão "a ficha caiu" se concretiza. Gerando satisfações. Proporcionando estranhamentos, sobretudo.

Em um dia festivo, diante do qual você já se reconhece no estranhamento, essa ação de concretizar passa a ter mais relevo que o dia-a-dia da nossa rotina. Duas queridas primas de sua mesma faixa etária, que há tempos não as via, aparecem cada uma com uma criança a tira colo, cada uma com seu filho, duas criaturas lindas! Ao voltar a casa, em uma pausa em um bar, as reflexões tangenciam os sorrisos e os afagos. Em um final de semana prolongado de novembro, uma visita forasteira mais-que-querida novamente adormece alguns dias em sua casa e o leva a dormir no gabinete: seu irmão e família. Dessa vez, com mais uma pessoa, a sua filha, a segunda, e que apenas conhecia por fotografia: oito meses de muita timidez, calma e lindeza. Ao seu retorno ao extremo oriental brasileiro, as saudades ficam e os pensamentos retornam com força: as gerações familiares estão velozes. No sono da última noite, uma infinidade de situações vivenciadas, entre a morte e a esperança (literalmente) e os recados que parecem ter sido dados, a experiência mais interessante e ao mesmo tempo surpreendente foi o resgate de três pessoas da sua época de alfabetização estarem ao seu lado: uma não reconhecível, um com a certeza de quem é e sabendo como está atualmente e, por fim, uma coleguinha, muito linda por sinal, e as exasperantes vontades de retomar os contatos após relembramos uns aos outros pelos nomes - e foi isso que mais pareceu o recado: seu nome.

Acordo atordoado, mas ao mesmo tempo extasiado, querendo encontrar as lembranças de 19 anos atrás. Novamente, a ação recaiu sobre meu corpo e a primeira vez que você utiliza um intervalo de tempo tão grande para resgatar um momento vivido seu. Vinte minutos e o material foi devidamente encontrado: a lista de assinaturas, com letras até bonitinhas para quem ali aprendeu a escrever, dos coleguinhas e das coleguinhas daquele ano de 1992. Pela rede social virtual, encontrei-a e espero curtir (e ela também) esse esbarrão.

Diante de tudo isso, não adianta mais sonegar as informações e, daqui a um tempo, negar as provas cabais de que essa ação da natureza também lhe envolve; se às rugas existem as plásticas e aos cabelos brancos as químicas (e mediadas pelo dinheiro na sua realização do disfarce), a idade não adianta esconder, portanto, sorria: você está envelhecendo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CBF: Celeção Brasileira de Farejo (sic!)

Encerra-se mais um ano "letivo" da CBF - mais conhecida criticamente como Celeção Brasileira de Farejo (sic!) -, de maneira que as bases chamam mais a atenção que a protagonista da turma e os aspectos políticos inerentes a ela clamam mais debates que a convocação para um jogo... mas, aliás, que jogos?

Cotidianamente, em tempos passados, este esporte, com cujos fãs majoritariamente homens - e por isso à época o futebol era associado ao machismo (e sua reprodução em relação ao futebol feminino tanto é combatida, de forma bem feliz e que por isso também associado a produtos voltados ao público masculino , como cerveja, vestuário, calçados, para ficarmos em exemplos ilustrativos) -, atraía focos no mundo do trabalho a cada jogo, anunciado com forte tom emotivo e com o lacônico ufanismo oriundo do vínculo da paixão nacional ao regime militar com a conquista de 1970 e o hit ecoado naquelas paragens; as firmas paravam, contando ou não com o apoio do patronato, por noventa minutos a espera do gol do camisa 9, 10 ou 11. Nenhuma outra camisa era reprimida, todavia, na satisfação dessa vontade.

Isso me faz lembrar a Copa de 1994 e meus poucos idos, com a família reunida em frente a televisão: crianças nas bordas dos sofás e mesas de centro, homens sentados nos sofás e cadeiras, mulheres fora da sala, geralmente conversando sobre outra coisa qualquer. Era quase uma hierarquia construída. Na final contra a Itália - ainda hoje o jogo mais tenso e emocionante que já acompanhei -, o misto entre a descrença e a esperança soerguiam lance a lance, até que nos penais havia quem não quisesse ver, os curiosos, os apaixonados e as pessoas que preferiam apelar às divindades. Brasil campeão, era bonito de se ver as ruas amontoadas de bandeiras.

Por um lado feliz, vemos que o futebol tem se tornado mais democrático e democratizante quanto ao seu acesso, visto que temos cada vez mais mulheres torcedoras e tão sagazes em relação ao futebol a deixar muitos marmanjos no chão; por outro, essa ação democrática/democratizante é paradoxal, haja vista a realização do esporte se tornado mais e mais impositiva, truculenta, observando os exemplos da distante África do Sul e do cotidiano Brasil repetindo as mesmas ações. Ao lado disso, o valor àquilo que as pessoas antigas tanto referendavam hoje assume outras perspectivas, outras diretrizes: a amarelinha. Ao caso brasileiro, talvez ela assuma a mudança de paradigma que o futebol tem absolutizado: o valor de uso se consolidando em valor de troca.

Como tornar isso concreto? Analisando o ano "letivo" deste processo, de modo que o selecionado principal da CBF realizou 12 jogos amistosos (em datas Fifa) em 2011, além da Copa América na Argentina e da controversa Copa Rocca contra a Argentina, em jogos de ida e volta. Diante disso, em relação aos jogos amistosos, apenas dois (Holanda e Romênia, em despedida a Ronaldo, praticamente um rachão!) foram realizados em casa, com mando efetivo de campo em território nacional. Outros quatro jogos foram realizados "em casa" europeia, principalmente na Europa e no Oriente Médio, com a justificativa do deslocamento dos jogadores vinculados aos clubes europeus, além dos jogos como visitante (mais três).

Como proposta de preparação à Copa do Mundo e Copa das Confederações - porque não temos um foco à Seleção Olímpica, que é um tanto diferente das seleções de base -, os adversários insólitos não empolgaram (Egito, Gabão, México, Costa Rica, Gana e Escócia) e os fortes adversários impuseram seu jogo e as fragilidades nossas, principalmente a Alemanha. No entanto, curiosamente, observando os adversários e os locais de jogo - e associando a isso a marcação dos jogos realizado por uma empresa vinculada à CBF -, uma questão de ordem tem seguido o curso anual: expansão de mercado da camisa amarelinha; fazer com que o mundo a vista - por obséquio, consumindo-a.

Não resta dúvidas - e a isso críticas advirão - que dentro de campo o selecionado brasileiro não cumpriu com todos os objetivos pensados pelos/pelas seus/suas torcedores/as, mas à CBF, sem dúvida, abriu novas e reais possibilidades: pacote 11 jogadores + camisas amarelinhas = altos rendimentos se concretiza para além das nossas tevês ultramodernas!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Protestar, farrear ou transgredir? Lutar!

A provocação nas perguntas expostas apareceram em torno da atual conjuntura que toma parte da mídia (e de forma parcelada, fragmentada) a respeito da Universidade de São Paulo lançada por um programa religioso do concorrente do Cidadão Kane. Muito além das parceladas informações em torno dos fatos históricos (e espaciais, por que não?), o que parece necessário amadurecer no debate não é a presença ou não de forças militares na Universidade - seja ela a USP, a Uece, a Unilab ou a Unir - ou do uso de drogas - e aí a reflexão sobre o que é ou não droga e sua licitude e negação, já que o álcool é permitido - nos campi, mas aquilo que está neste processo.

À discussão colocada pela mídia, em formas de enquetes e perguntas objetivas do tipo "você é a favor ou contra?", forjam-se maniqueísmos tangentes a condições e conjunturas cujo elemento mais importante a se considerar está justamente no liame, no processo. Ao meio disso tudo, um capítulo apresentado foi uma edição inteira do programa "Fala que eu te Escuto" dedicado ao tema, interrogando os/as fiéis telespectadores/as sobre tal episódio - e nada surpreendente que todas as pessoas direcionando sua opinião à transgressão de regras, um rompimento moral, focando o uso da maconha. Os usuários foram postos na berlinda e apenas um dos lados foi questionado; apenas um lado, o outro, está sendo ouvido.

A história não teve seu início neste epípeto. Uma primeira prerrogativa foi apresentada em nota¹ pela Professora Ana Fani, do Curso de Geografia desta Universidade, relacionando a precarização da universidade em sua totalidade e a presença da polícia, de igual maneira ao escasseamento de incentivos de pesquisa e o rareamento do tempo de reflexão acadêmica (diferente por natureza do tempo da produção), diante da qual as condições da Universidade de São Paulo - e não apenas ela, embora sua dimensão internacional amplie sua polarização - tem experimentado. Ela se posicionou a favor das manifestações enxergando a totalidade da questão e não apenas o fato in situ. A universidade foi posta ao debate e apenas um dos lados foi questionado; apenas um lado, o outro, está sendo ouvido.

As opiniões contrárias - e prenhes de ideologia contrária, vocês devem saber qual é - emergem com um próposito também de totalidade, oriundos do fato e proporcionando voos mais altos. O que dizer de um jornalista² que não conhece a produção geográfica no todo e, ao invés de discuti-la, desqualifica-a com a autoridade que não lhe é conferida? O voo mais alto não foi vencer a professora no debate, mas aniquilar a Geografia da vida escolar e cotidiana na formação crítica da sociedade, pondo-a como inútil e desnecessária. Aliás, o que tratamos ideologicamente como autoridade? Qual a autoridade, por exemplo, que se estabelece entre uma tropa de choque três vezes superior ao número de estudantes em uma tensa relação dentro de um campus universitário? Qual a autoridade posta em exercício quando muitos daqueles apontam veridicamente sua opinião à aplicação de punição aos/às estudantes usuários de maconha - que muitos alegarão como porte de entorpecentes e segundo a lei, é proibido - e, principalmente, aos atos de manifestação? Proibir as manifestações, agora? Quando estão afirmando que é um fato histórico de transformação de uma realidade, temos uma verdade, porém com argumentos diferenciados: inicialmente, o que está na mesa de xadrez não seria a relação de um possível e ampliado debate sobre um assunto (a descriminalização das drogas ou, especificamente, da maconha) mas, contraditoriamente, o seu contrário, a saber, a proliferação de um debate cada vez mais deliberado (a criminalização de movimentos sociais).

Esse contrário vem se consolidando historicamente na formação brasileira, em que desde a segregação racial e regional discriminatória que temos constantemente presenciado e que alguns lutam arduamente contra isso, até a piada insalubre é realizada sobre uma triste realidade. Atribui-se a questão dos movimentos sociais a um determinado grupo - e dependendo da fonte da opinião, considerando-o um grupo de baderneiros -, sem notarmos que a organização coletiva dos indivíduos também é uma construção social em busca de suas garantias, de seus direitos: os movimentos estudantis, os movimentos grevistas, os movimentos de reivindicação, os moradores de condomínios em assembleia, os moradores de uma comunidade mobilizados. Daí, diante dessas diferenças, o que vem à tona é uma dimensão política - que repercute também, é claro, ao capítulo de uma narrativa sobre a vida real em andamento em São Paulo.

Fica ausente, portanto, ausente na exposição tanto ao esclarecimento geral quanto à construção de novas possibilidades a compreensão do processo que, de um lado, tem a precarização da universidade (e da vida) e, de outro, seu tratamento de forma unilateral e na base da força. Não estamos falando de meio termo, de ponderação ou de consenso, mas de processo. Até porque fica óbvio que as questões ali evidenciadas não envolvem apenas um baseado e uma tropa de choque como antítese. Não se resumem a isso - ou não deveria ser resumidas, como parte da mídia o faz ao fragmentar, propositadamente, para fins de notícia, o ocorrido. Há mais a se saber e a lutar...

E a pergunta que foi feita entre parênteses: e o espaço diante disso tudo? Ora, se o tempo histórico nos mostra a construção de segregação e de preconceitos presente na nossa formação, é claro que ela se materializa em algum lugar. Em algum espaço!

Por fim, vale a pena ler um relato de alguém que se diz despolitizada³.



¹ http://www.facebook.com/note.php?note_id=258372657547134
² http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/os-problemas-obvios-de-alfabetizacao-de-uma-professora-de-geografia-da-usp/
³ http://www.facebook.com/notes/shayene-metri/desabafo-de-quem-tava-l%C3%A1-reintegra%C3%A7%C3%A3o-de-posse/233831886679892

sábado, 5 de novembro de 2011

Finados, Fortaleza e Supermercado: como relacionar?

Entrada de um mês, recebimento de crédito para as aquisições do sustento mensal e a necessidade batendo a porta de casa tangente ao pão nosso de cada dia levam-nos a realização de inúmeras atividades diária e cotidianamente. Em Fortaleza, a intensa movimentação no trânsito insuportável da cidade tanto pela sua malha viária deficiente quanto (e principalmente por isso, entre outros motivos) pela precariedade do transporte público e a enorme quantidade de carros particulares parecem dar à cidade um ritmo tão forte que mata um pouco de nós dia após dia.

Novembro pede permissão para se aproximar e, com eles, as lembranças de quem não volta mais e permanece constantemente em nossas vidas. Assim como o trânsito alencarino. Em um novo ritmo de mobilidade e congestionamento, essa permanência da insustentabilidade agora adentrou o supermercado. Era dois de novembro e a quantidade enorme de pessoas e carrinhos em um supermercado era tão impressionante quanto o tamanho de suas filas. A estratégia a se tomar seria: meu filho, pegue o carrinho e vá para a fila, que enquanto isso eu vou pegando os produtos.

Ao enfrentamento da enorme fila, na não realização da hipótese abstrata que não se materializou, mais de meia hora foram repartidas com a espera de dez pessoas a nossa frente. Enquanto isso, entre uma saída e outra em busca de algo esquecido, as piadinhas típicas ecoavam: "a Avenida Borges de Melo agora é aqui dentro!", "o trânsito de Fortaleza é um inferno e agora estamos na filial!", entre outras. Até que uma circunstância aparece em voga e um homem conversa comigo:
- Tá difícil mesmo essa cidade, né? Ela tem realmente assumido sua versão de metrópole...
- É, mas essa condição era inerente a ela há algum tempo, não é pela população, mas...
- ...mas hoje é bem mais evidente, o trânsito é escroto. Já experimentou andar no Centro de carro?
- Não arrisco, sei que é bem complicado.
- Mais complicado ainda quando os ambulantes invadem a rua e a calçada, não há como se locomover.

Esse diálogo entre um homem de meia idade e eu - que não dei nenhuma indicação de minha orientação política e da formação profissional - parece evidenciar não apenas uma realidade em discussão na cidade e que não tem alcançado a população (falamos do que estão chamando de Fórum Viva Centro, iniciativa da Câmara dos Vereadores e apoio da Prefeitura de Fortaleza, do CDL e do Jornal OPovo), mas o seu contrário, formas de matar uma cidade que tem se autoflagelado pela sua própria população (parte dela, claro): a sua negação como forma de criticá-la.

A sua negação parece ser um traço muito mais forte em relação ao contracheque caído na conta corrente no começo do mês e o novembro trazendo consigo a lembrança saudosa dos finados; é inclusive uma forma de não ter o que resguardar.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Imagens da Semana, parte IX

Olá curiosos, olá curiosas!

Esta imagem, de Goiânia/GO, é uma demonstração de como o Centro da cidade também é lugar de criatividade, em meio a sua suposta morbidez e suposta "morte noturna".

Em lugares tão efervescentes de movimento na cidade, seus Centros 'abrigam' formas de realização da vida e do "marketing da sobrevivência" capazes de provocar risos ou, inclusive, de funcionar!

Atentem à foto. E fiquem à vontade... ou não!

Foto: @felipesilveir4

domingo, 16 de outubro de 2011

Não sei ou não quero dizer?

Essa é uma pergunta que incute, invariavelmente, em um confronto de valores éticos e morais na guisa da verdade e de sua antítese, a mentira. Há quem considere a omissão o meio termo entre a oposição. Há quem diga, também, que existem meias verdades e mentirinhas, dando, a ambas, características eufemísticas. Experimentar esse mix de relações abstratas na realidade é bem factível. Dia a dia provamos o seu sabor - amargo, salgado, doce, azedo... vai depender do conteúdo e do seu paladar; se o cardápio for forasteiro, este sabor será mais aguçado, seja qual for.

Em terras forasteiras, você fica mais suscetível às intempéries locais, desde a chuva desavisada até ao cotidiano das pessoas e do mundo que não conhece. Frente ao inusitado, a boca que leva à Roma pelo ditado popular também é evocada a perguntar, em busca de informações. Antes, um parêntese: você, que tem seu namorado, sua namorada, sente a falta da pessoa querida pelo fato de ela demorar a chegar e, no encontro, pergunta: "onde você tava?", tem como resposta "tava ali...", questiona o celular desligado e ouve um "não sei...", guarde essa sensação para entender o fim do texto.

Viajante que não é turista - e mesmo se fosse - gosta de perguntar, ter o novo local de forma mais palpável, seja para o entender, seja para nele poder transitar, conviver e vivenciar. Um ônibus era necessário nessa minha saga no lugar diferente e, obviamente, a pergunta que não calaria ninguém: "qual ônibus eu devo pegar para chegar ao destino tal?". Você pergunta inicialmente a um policial, prevendo que ele dê uma informação segura (literalmente, segurança...) e obtem como resposta "não sei". Estranho. Um homem dá a informação e quarenta minutos depois avisa que o ônibus não tem trocador, que as passagens são por bilhete. Ao perguntar onde comprar, mais uma vez "não sei".

Um lugar novo que mesmo não sendo o destino turístico parece-lhe dever ser acolhedor e essa situação era, ao contrário, irritante. Vinte minutos e chegar em terminal de nome bíblico, o vendedor de bilhetes também me responde "não sei" à pergunta inicial, do ônibus para chegar ao destino. "Pergunta ao motorista aí atrás d'ocê", disse ele. Pensei em mudar a estratégia e questionei se aquele ônibus chegaria ao obstinado destino. "Não" foi a resposta. Mudou-se a estratégia, mudou a resposta. "...e qual que vai daqui até lá?", como forma de puxar assunto, saiu. A resposta? "Não sei".

Lembra da sensação sentida no parêntese? Foi a sentida ao ouvir o quinto "não sei" em menos de uma hora numa cidade desconhecida, onde você fica refém de deslocamento e de vivê-la. A questão ética e moral posta no começo da crônica não se direciona às pessoas, que nem as conheço, mas ao hábito, ao establishment percebido por várias pessoas próximas a mim neste horizonte vivido naquele território. Além do mais, a narrativa de um exemplo é apenas uma provocação à pergunta lançada: é mais danoso, mais irritante - quando perguntamos - a negação da informação ou o seu desconhecimento? A resposta, levemos a reflexão sobre mentiras, verdades, omissão, meias verdades e mentirinhas necessárias e veremos a dimensão dessa conjuntura em nossas vidas, aqui e acolá.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Se escola fosse estádio e educação fosse Copa.


Por Jorge Portugal


Passei, nesses últimos dias, meu olhar pelo noticiário nacional e não dá outra: copa do mundo, construção de estádios, ampliação de aeroportos, modernização dos meios de transportes, um frenesi em torno do tema que domina mentes e corações de dez entre dez brasileiros.

Há semanas, o todo-poderoso do futebol mundial ousou desconfiar de nossa capacidade de entregar o “circo da copa” em tempo hábil para a realização do evento, e deve ter recebido pancada de todos os lados pois, imediatamente, retratou-se e até elogiou publicamente o ritmo das obras.

Fiquei pensando: já imaginaram se um terço desse vigor cívico-esportivo fosse canalizado para melhorar nosso ensino público? É… pois se todo mundo acha que reside aí nossa falha fundamental, nosso pecado social de fundo, que compromete todo o futuro e a própria sustentabilidade de nossa condição de BRIC, por que não um esforço nacional pela educação pública de qualidade igual ao que despendemos para preparar a Copa do Mundo?

E olhe que nem precisaria ser tanto! Lembrei-me, incontinenti, que o educador Cristovam Buarque, ex-ministro da Educação e hoje senador da República, encaminhou ao Senado dois projetos com o condão de fazer as coisas nessa área ganharem velocidade de lebre: um deles prevê simplesmente a federalização do ensino público, ou seja, nosso ensino básico passaria a ser responsabilidade da União, com professores, coordenadores e corpo administrativo tendo seus planos de carreira e recebendo salários compatíveis com os de funcionários do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica Federal. Que tal? Não é valorizar essa classe estratégica ao nosso crescimento o desejo de todos que amamos o Brasil? O projeto está lá… parado, quieto, na gaveta de algum relator.

O outro projeto, do mesmo Cristovam, é uma verdadeira “bomba do bem”. Leiam com atenção: ele, o projeto, prevê que “daqui a sete anos, todos os detentores de cargo público, do vereador ao presidente da República serão obrigados a matricular seus filhos na rede pública de ensino”. E então? Já imaginaram o esforço que deputados (estaduais e federais), senadores e governadores não fariam para melhorar nossas escolas, sabendo que seus filhos, netos, iriam estudar nelas daqui a sete anos? Pois bem, esse projeto está adormecido na gaveta do senador Antônio Carlos Valladares, de Sergipe, seu relator. E não anda. E ninguém sabe dele.

Desafio ao leitor: você é capaz de, daí do seu conforto, concordando com os projetos, pegar o seu computador e passar um e-mail para o senador Valadares
(antoniocarlosvaladares@senador.gov.br) pedindo que ele desengavete essa “bomba do bem”? É um ato cívico simples. Pela educação. Porque pela Copa já estamos fazendo muito mais.

Jorge Portugal é educador, poeta e apresentador de TV. Idealizou e apresenta o programa “Tô Sabendo”, da TV Brasil.

domingo, 2 de outubro de 2011

Mistérios da meia noite

Sábado para domingo e a noite fora da cidade parece ser outra. É convidativa, atraente, envolvente, brilhosa e reluzente. Parece enfeitiçar, tanto que quando as situações supõem-se retornar ao normal, o susto impera.

Em final de semana de intensos debates e construção política a partir da chuva de ideias em um grupo coletivo de pessoas - com propostas semelhantes de ação/intervenção -, a madrugada de sábado mereceu, após horas de uma propositiva atividade, ser vivenciado de forma mais plena. O céu negro em um olhar mais atento e não necessariamente acurado dava lugar aos milhares de pontos brancos no horizonte astronômico.

As estrelas eram muitas e, caminhando e cantando e seguindo a canção, os mistérios da meia noite eram descobertos por várias pessoas, copos de vinho e celulares com função de lanterna. No percurso, os lobos já manifestavam sua presença por seu bafo e seus latidos. Opa, estamos falando dos cachorros da longínqua vizinhança de uma comunidade rural de Guaramiranga, Ceará. Comunidade que tinha um local - que nos acolheu nessa caminhada tortuosa - com uma função talvez mítica: sentir a energia estrelar.

Sentados ou deitados, sentadas ou deitadas, na calçada da suposta igreja estávamos. Felizes, admirados e com as bocas rubras de algumas doses de vinho bebidos por todas estas pessoas. Supostamente escuta-se um rangido arrastado de porta no chão. Uma pessoa amedronta-se e outra sai em disparada: era a chama geral de um alarme que não era falso. É hora de correr.

Desgarrados, desamparados e sem professor, a subida íngreme não encerrava a fuga, embora fadigasse a corrida. Do susto, se lobisomem ou não, os mistérios dessa meia noite permanecerão ocultos. Afinal, cadê os impérios do lobisomem?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Imagem da Semana, parte VIII

Olá, Curiosos! Olá, Curiosas!

A Imagem da Semana não poderia ser outra: esta foto, extraída do Jornal OPovo, daqui de Fortaleza/CE, retrata muito bem a truculência com a qual temos convivido sob as ações do atual Governo Cid Gomes no comando do Palácio Abolição.

A agressão é justificada, tanto pela polícia militar (Batalhão de Choque, diga-se de passagem) quanto pelo presidente da Assembleia Legislativa (onde ocorreu o fato), Roberto Cláudio (PSB, mesmo partido de Cid Gomes) e Izolda Cela, Secretária de Educação do Estado, como medida de proteção ao patrimônio público.

Acontece que o maior dos patrimônios que o Estado (no sentido conceitual do termo) tem são seus funcionários, são as pessoas que trabalham para prestar à sociedade os serviços públicos essenciais e necessários ao funcionamento sob seu regime. Ante a negação das pautas de reivindicação do movimento grevista (a satisfação do piso salarial e do plano de cargos e carreiras da categoria), a resposta oficial derrama decepções políticas e muito, muito sangue.

foto: Jornal OPovo, em: http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2011/09/30/noticiapoliticajornal,2307485/imagem-marcante.shtml

domingo, 25 de setembro de 2011

Domingo: frango assado e reminiscências

Em música dos lendários Mamonas Assassinas, entremeios suas sátiras e metáforas, no sábado de sol é dia de comer feijão. Parece que o domingo, para além da Praia de Iracema e Meireles, é dia de comer frango assado com baião de dois ou, ao linguajar da terra, o famoso galeto. Essa constatação parte das viagens entre Parangaba e Montese e seus estabelecimentos lotados - e tradicionais. No entanto, o que mais chamou a atenção nesse domingo não foi a qualidade da comida ou a quantidade de pessoas que a esperavam em seu preparo; reminiscências de duas jovens senhoras, sim.

Duas jovens senhoras, à espera da terceira, combinaram um almoço em conjunto, a reavivar longas datas e lembranças de um passado quando juntas. Atividades profissionais e residências em Estados diferentes (uma delas viera de férias ao Ceará) tornam essa experiência uma satisfatória reunião. Antes dela, em seu preparo, à espera do frondoso galeto, a jovialidade permanente aflora em uma disputa nada ofensiva; ao contrário, era bem divertida!

Em conversa com colega de pósgraduação sobre questões acadêmicas, um pequeno burburinho ouvia ao meu lado, mas nem ligava muito. Percebi-o melhor a partir de quando ele foi embora e noto melhor o alvoroço, que inclusive arrancava risadas tímidas de crianças presentes na longa fila do galeto de seu Luís: um empurra-empurra pra ver quem pagava, entre as duas, o nosso galeto. Uma disputa entre a cordialidade telúrica de quem recebe uma visita e a disposição em agradar tamanha recepção.

Em meio a isso tudo, o sabor do galeto ficou bem melhor e deixou este domingo bem mais altivo!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Universidade + Pensamento = felinocídio?

Uma tarde de estudos específicos sobre a cidade e o urbano. Um capítulo denso e bastante interessante sobre Henri Lefebvre e seu 'Espaço e Política', há clara observação e convergência sobre uma condição inerente ao cotidiano que reproduzimos: na política do espaço, o espaço é político. A política do espaço, conforme apresenta, é permeado de estratégias dos usadores - ou, para sermos didáticos, dos agentes que produzem o espaço: capital, movimentos sociais e Estado.

Conservando este significado, importante compreender que a Universidade, tanto como um ente institucional do Estado (quando pública) como um equipamento urbano da cidade e, assim, pertencente ao cotidiano do ir e vir de todos (independente de sua natureza), é o espaço por excelência de convivência das diferenças e o lugar onde se sobressaem as tentativas de melhoria (na perspectiva conservadora) ou transformação (na perspectiva radical) da realidade. Como um tópos do pensar, essas diferenças e tentativas, mesmo divergentes, parecem ter um objetivo em comum: a realidade. Bastaria considerá-la concreta em meio à abstração e, dialeticamente, em sua abstração enquanto concretude.

Eram mais de 16h. As mentes cansavam, mas Lefebvre parecia estar motivando as discussões em torno do abstrato e do concreto dialético quando uma amiga em comum das três pessoas do grupo aparece. Um tanto tensa, em virtude dos prazos acadêmicos, logo tem ao seu redor os queridos que a amam, que a seguem e, de uma maneira bem pueril, que a idolatram: os gatos. Como uma mãe que cuida dos filhos, depois da prosa abre sua necessaire e dá o de comer aos gatos. Os gatos estavam nos bancos de cimento. Lá a ração fez companhia a eles, até ser comida. Uma companhia indigesta aparece.

Imediatamente, escuta-se: "dá chumbinho pr'esses gatos!"; "aí não é lugar de gato comer, é de estudante sentar, rapaz!". De forma muito grosseira, um professor interrompeu sua aula para dar sua pretensa lição de moral, com intensa falta de educação. "Esses gatos são tudo doente, são vetores de doença!", ainda berrou. Os gatos não vão a Universidade porque tem comida por pessoas boazinhas, mas porque são abandonados, isso sai tanto da boca dela quanto de qualquer pessoa esclarecida a este respeito. Cinco minutos de desabafo estressado entre amigos e o professor conclui sua aula vindo até a mesa e, entre tantos devaneios, reconhecimento da grosseria e a ausência da educação, fecha com "chave de ouro" sua profecia: "o problema ecológico e ambiental do mundo é a falta de controle demográfico humano".

O grupo conversa, espia os olhos e faz algumas considerações sobre o fato: este professor é malthusiano, acreditando que a população cresce em proporções geométrias alarmantes. Um retorno às aulas de Geografia e Economia Política bem conservadoras. Ademais, uma conclusão empírica do grupo de estudos: o espaço é definitivamente político e seus usagers, na forma francesa de discernir os agentes, pensam o mundo a partir do seu umbigo e o encerram em seu próprio chão. Um felinocídio foi proposto e para ele o problema estaria resolvido. Para ele.


p.s: Este fato foi real e ocorrido na Universidade Estadual do Ceará - UECE. O professor terá sua identidade preservada por não sabermos seu nome. A colega "mãe" dos gatinhos é uma militante da proteção animal e faz parte do Grupo de Apoio e Bem Estar Animal - GABA, que promove diversos eventos a fim de sensibilizar pessoas e encaminhar animais à adoção. A moral da história, além da descrita, é sensibilizar em torno do concreto - nossa realidade - para que possamos conhecer aquilo que ocorre e não percebemos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Imagem da Semana, parte VII

Olá, Curiosos! Olá, Curiosas!

Rua General Sampaio, Centro de Fortaleza. Dois quarteirões da imponente Faculdade de Direito e da abandonada Praça Clóvis Beviláqua, deveríamos ter o Museu da Seca.

De propriedade e manutenção do Departamento Nacional Contra as Secas (DNOCS), este museu deveria retratar, expor e apresentar culturalmente os aspectos relevantes às características climáticas, sociais e territoriais do Nordeste brasileiro. No entanto, em seu lugar funciona, em partes, um estacionamento privado - portanto um vazio urbano - e a edificação, amarela à esquerda, aparentemente (de forma externa, já que não entramos nela) abandonada.

É de ficar à vontade e sentado vendo isso?

Foto: @felipesilveir4

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Imagem da Semana, parte VI

Olá, Curiosos! Olá, Curiosas!

A Imagem da Semana mostra uma curiosidade: o que seria isto representado na fotografia?

Posso dizer sinteticamente que são as janelas laterais da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Aprofundando, duas matizes de paredes e janelas diferentes. No entanto, é-nos visível outras relações: 1) dois períodos arquitetônicos encravados no ambiente construído e 2) a expansão do Forte em período histórico diferente da estrutura original. Há quem discorde disso. É um debate aberto.

Foto: @felipesilveir4

sábado, 10 de setembro de 2011

Imagem da Semana, parte V

Olá, Curiosos! Olá, Curiosas!

Depois de tanto tempo, enfim retornamos às atividades com uma demonstração curiosa e diferente de nossa realidade local.

A Imagem da Semana registra a Ladeira Porto Geral, em São Paulo/SP. Na subida, a Estação São Bento e, da posição em que tiramos a foto, horizontal em relação a ladeira, a Rua 25 de Março, em pleno sábado de manhã.

Cidades diferentes, mas um ponto em comum: a centralidade urbana que o Centro cumpre à cidade.

Sentem-se e fiquem à vontade, se conseguirem, aí.

Foto: @felipesilveir4

sábado, 3 de setembro de 2011

Perfumes

Em um período maior que uma semana, apenas para dar um exemplo, uma infinidade de perfumes foram exauridos de meu corpo e sentidos do ambiente pelo meu olfato. Eram diferentes locais, diferentes ocasiões, diferentes conjunturas e, obviamente, diferentes perfumes.

A primeira oportunidade de experimentação é sentir os perfumes da madrugada, de forma sonolenta e ansiosa de uma viagem solitária a trabalho que se fará. Madrugada calma e sem movimentação na rua, quatro e meia da manhã você sente o seu próprio perfume, o natural e o produto usado para perfumar; você se sente a pessoa mais cheirosa, a única. Essa ilusão esvai-se ralo dentro ao chegar ao aeroporto e seu nariz perceber aquelas pessoas todas e sua diversidade de perfumes franceses ou paraguaios. Mesma situação que dentro do avião.

Segunda oportunidade é colocar o olfato em teste dentro do transporte público forasteiro: os metrôs e os ônibus, além das ruas e das estações. Aliado ao clima seco e mais frio que o nosso, os perfumes novos dão uma novidade em nossa mente e em nossas sensações, posto que a paisagem também é uma novidade, onde pisamos e tocamos também e, assim, os sentidos se perturbam. Dessa forma foi durante cinco dias, entre ruas, locais de trabalho, prédios visitados, bares, restaurantes, livrarias, sebos... um registro olfativo de uma realidade diferente.

A terceira é ouvir as pessoas falarem do seu perfume e ter nisso um álibi para tentar dissuadir a realidade com o aroma único que se expele. Entre abraços e convivências, o resgate ao cheiro emanado repercute de forma magnífica a quem ouve o aviso 'cheiroso'. Isso, tanto dentro do transporte público coletivo, ambiente construído, na rua.

Depois disso, é a oportunidade de resgatar os perfumes de sua terra natal, com umidade, com maresia, com o hábito que é rememorado depois de alguns poucos dias daqui distante. O cheiro de meu quarto, de minha casa, da rotina com a qual se convive, até mesmo das mangueiras da universidade ou da poeira dos livros da biblioteca, até o do velho e bom vinho barato da esquina da favela. O perfume dos amigos, das amigas, das margens de riachos, do churrasquinho de beira de avenida com farofinha, do mato mesmo que circunda toda essa proximidade cotidiana.

Enfim, neste sábado é a dedicação a alguns perfumes peculiares a serem partilhados, convividos, experimentados. Perfume dos amigos, das cervejas, da boemia, de velas e bolo, de felicitações, de aniversários, de pessoas especiais. Esses perfumes, certamente, serão excelente pedida de um dia bem vivido!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Não gosto, mas eu quero

Parece coisa de menino birrento. Mamãe pergunta se eu quero comer brócolis com carne de sol e logo faço careta com a negação da comida, por mais que goste de carne de sol. Foi o brócolis. Mas bem que queria aquilo no prato - eu separaria o brócolis do charque e, talvez, até poderia experimentá-lo.

Essa é a sensação minha em relação à São Paulo. Não gosto daqui - é de onde escrevo: cidade cinzenta, pesada, nebulosa, tensa, lenta, longa, grande, ampla, distante. Estou, mesmo assim, aqui, e porque quis. Quis por uma necessidade pouco compreendida por muitos e muito ressalvada por poucos. Entre os conjuntos de dez prédios iguais, feitos caixas de sapato em pé sem mesmo alterar o número de cada par, ainda assim existem elementos, pessoas e circunstâncias que fazem-me não apenas dar três horas de viagem aérea, mas mais duas terrestres em solo paulista.

Parece coisa de menino birrento. Fazer cara de desgosto, mas sorrir com tudo isso; ficar com a vista e o corpo cansados, mas se recusando o repouso; usar as mesmas roupas com o clima nordestino e gabar-se de não sentir frio sentindo frio; sentir-se assaltado com o custo elevado de vida - e dos estudos -, mas satisfeito pelo investimento no material alcançado.

Essas são as sensações de onde escrevo, daqui, da paulicéia (com ou sem aceito no ditongo?) desvairada. Tal como o brócolis, nego as oportunidades para passeio pela perdição que ela pode proporcionar, mas indiretamente serei frustrado em não experimentar a noite paulistana; tal como a vontade de experimentar, está aí a própria cidade e sua rotina, seu ritmo e seu cotidiano - nos ônibus, nos metrôs, nas ruas.

Eu não gosto, mas eu quero.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Imagem da semana, parte IV


Curiosos e curiosas, olá!

Nesta imagem, a demonstração de uma luta pela sobrevivência em meio a uma realidade inerente ao Centro de Fortaleza, mesmo em dia dos mais obsoletos e teoricamente vazios: fim de tarde de domingo.

Rua José Avelino, um resquício da história fortalezense e da ocupação da capital alencarina pós-Pajeú, transposto depois de séculos de tímida colonização territorial em suas margens, agora é palco de (sobre)vivência de centenas de pessoas no mercado informal, em fim de tarde, em espaço que teoricamente deveria ser tornado cuidado pelo bem patrimonial e histórico que representa à cidade, por seu piso original desde o período relativo à belle époque, sobretudo em sua pavimentação. São as contradições entre o bem viver da cidade e a realidade objetiva do (sobre)viver na metrópole.

foto: @felipesilveir4